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17/09/2009

Armário, mídia e Richarlyson


O mundo esportivo nunca reagiu bem à sexualidade "desviada" de seus atletas. É fato. Vide a traumática experiência do volante são-paulino Richarlyson e a super maldosa declaração do ex-executivo da Renault, Flavio Briatore - ao tentar jogar fumaça no noticiário sobre trapaças feitas pela equipe para favorecer o piloto Fernando Alonso. O ex-chefão da F-1 não titubeou em "acusar" Nelsinho Piquet de ter caso com um homem mais velho. Tudo para fugir da culpa no cartório.

O machismo domina o mundo do futebol e do automobilismo. Essa relação de dominação foi plenamente confirmada na edição desta quinta-feira, do jornal esportivo Lance!, cuja manchete foi "Revelações de Ricky" (você pode acompanhar um vídeo feito durante a entrevista e aproveitar para tirar as próprias conclusões). Não espere que essas linhas façam uma defesa exclusiva do jogador - diante da possibilidade real de o atleta ser homossexual (sim, todas as quintas-feiras, Richarlyson desce até o chão, na pista da boate Aloca, com direito a óclão e micro-shorts).

O texto sobre Ricky ocupou três páginas do jornal esportivo. De autoria de Sergio Gandolphi, passa a clara impressão de que houve o seguinte acordo entre cavalheiros: do lado do jogador, a aceitação em conceder a entrevista - desde que o jornal respeitasse a vida pessoal do volante. "A mídia esportiva tem de falar do trabalho esportivo, dentro de campo", reclamou o atleta ao ser questionado sobre sua vida pessoal. "Se fosse uma revista, ou jornal de celebridades, eu falaria sem problemas". Mas, é o Lance!. Portanto, nada de assumir.

O início do texto já dá sinais de que o "acordão" pesou na hora da entrevista. O jornalista começa lembrando que Ricky envolveu-se em uma polêmica com um dirigente no Palmeiras. Calma, lá. Essa polêmica tem nome. Ao ser perguntado, durante um programa jornalístico, sobre a contratação de um jogador homossexual para o elenco palmeirense, o ex-cartola José Cyrillo Júnior disparou: "Richarlyson joga no São Paulo". O nome da polêmica é homofobia. Mas, talvez, o autor do texto tenha achado deselegante lembrar o leitor sobre isso. Preferiu apenas sinalizar que o jogador, agora, havia dado a volta por cima - o atleta que mais cresceu em 2009.

As primeiras perguntas do repórter são ligadas ao desempenho técnico do jogador, motivação, a falta de gols e a possibilidade de ser tetracampeão do mundo, pelo São Paulo Futebol Clube. Perguntas mais que relevantes, é verdade. O assunto passa a nos interessar diretamente à medida em que começa a entrar na chamada "vida pessoal" do atleta. As aspas dizem tudo:


"(...)Nunca tive pressão para mudar nada. Quando cheguei, cortei o cabelo porque estava feio, ridículo. Eu fui e cortei. Ninguém me pressionou, cheguei e falei que estava feio (...) Porque eles deixam eu fazer as coisas que eu gosto, não o que eles querem. Padrão eu sigo, lógico, mas o padrão profissional, o mais importante (...) É curioso que eu passei três dias sem treinar por causa dos cartões amarelos (ganhou folga), e disseram que o ambiente ficou mais triste. E eu tiro sarro mesmo, dou risada, chego brincando (...) Para a maioria que me ofende, nem ligo, porque é uma coisa banal (...) Cada um se veste do jeito que quiser. Mas tem uns jogadores aqui no elenco que são bem cafonas, outros se vestem bem e outros acham que se vestem bem (...)"

É possível falar que Richarlyson tenha deixado passar uma chance única. Três páginas para tocar em assuntos delicados. E desmistificar, de uma vez por todas, essa história furada de "revelações". Afinal de contas, a homofobia que aplaca um esplêndido jogador de futebol como é o caso dele não é nada. Ele nem liga. A mesma homofobia que faz torcedores gritarem "Bicharlison", nos campos, ou simplesmente ignorá-lo quando entra em campo, também é responsável pelas centenas de mortes patrocinadas pelo ódio.

Há alguns dias, abordei aqui a história do documentário "Outrage", que deve estrear nas telas brasileiras durante o Festival do Rio, no próximo mês. Toda essa história acaba desembocando em um cenário bastante parecido. Nele, o diretor Kirby Dick aborda a história de politicos norte-americanos que defendem publicamente medidas anti-gays cujas biografias são "manchadas" pela "sexualidade suspeita". Logo quando o diretor palmeirense acusou Ricky de ser homossexual, o jogador preparou a cena, arrumou uma namorada e pimba. Virou o rapaz heterossexual do momento.

O tempo passou, a namorada nem existe mais. Ele começou a frequentar as baladas gays. A sexualidade aflora. Mas, Richarlyson preferiu se manter no armário. Ele tem o direito de permanecer lá, se essa for a escolha dele. Mas, que é uma pena. Isso é.

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2 Comentários:

Às 18 de setembro de 2009 21:55 , Blogger Introspective disse...

Claro que, como gay, eu tb acharia ótimo ele se assumir, levantar a bandeira, peitar o preconceito, abrir um precedente positivo. Mas para a gente que está fora do sistema - e, convenhamos, o futebol não é exatamente um meio tolerante para trabalhar esse assunto - falar é muito fácil. Eu sei que você não está desrespeitando a opção dele de não assumir e pagar o preço... ainda assim, acho que a gente precisa se colocar no lugar dele para entender certas decisões e atitudes que ele tomou, antes de julgá-lo covarde ou pouco corajoso.

 
Às 19 de setembro de 2009 03:47 , Blogger Gustavo Miranda disse...

Longe de ir para o ataque da posição do Richarlyson, a entrevista inteira serviu para dizer que ele é gay, mas de uma forma tão sutil, mas tão sutil, que não é uma saída do armário. ELE É O JOGADOR ALEGRE. ELE É O ENTENDIDO DE MODA. O SÃO PAULO NÃO EXIGE NADA DELE, NENHUMA MUDANÇA DE COMPORTAMENTO. ELES O ACEITAM COMO ELE É. Está aí a mensagem, clara. Oras, sendo esse o cenário, que está explícito nas palavras dele, seria a hora de mostrar isso de fato. Mas, não é o que aconteceu. Essas sutilezas não me cheiram bem, Thi. Respeito a posição dele. E eu não quero forçá-lo a sair do armário. Até porque, ao beijar os "bofes" dele nas baladas, despreocupadamente, ele já abriu a portinhola do closet e deu um passo para fora. Agora, não posso sair em defesa dele, se ele não está nem no lado de cá, nem do lado de lá. Ele tb não precisa da minha defesa, anyway.
=)

 

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