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14/07/2009

Continuando a viagem antropológica sobre guerra e paquera

Não sei se, objetivamente falando, empreendo uma continuação do post anterior (a minha viagem pseudo-antropológica sobre a “caçada na buatchy”). Mas, a bem da verdade, vem bem a calhar o tema do texto de hoje: troféus. Se na minha reflexão anterior, apelei a Lévi-Strauss para falar a simbologia bélica da paquera – qualquer uma, seja hétero, bi, homo ou pansexual –, hoje vou me ater ao primeiro passo “pós-guerra”.

Uma frase célebre de Machado de Assis – “ao vencedor, as batatas” – foi capaz de se perpetuar na história e virar a tradicional gíria “vá plantar batatas”. Depois de empreender a sua batalha de vida ou de morte, e vencer, aquele que logrou êxito precisa exibir seu troféu. Mostrar que é competente e dizer para todo mundo que é capaz disso e muito mais.

Se é possível dizer que em todo fenômeno humano existe uma “representação da sociedade por ela mesma”, segundo a expressão do historiador Roger Chartier, talvez a mais totalizante delas esteja presente nessa dinâmica “guerra-trofeu-vencedor”, que eu observo claramente também nas relações pessoais, como a paquera. Exemplos disso, pelo menos na História, não são poucos.

Ao longo dela, a dinâmica se dá dessa mesma maneira. Na antiguidade, por exemplo, o exército espartano submetia os povos vencidos à escravidão. No caso dos atenienses, outro exemplo claro: vencidos tinham suas terras confiscadas e não tinham direito a participar da democracia ateniense. Dando um salto na história, outro exemplo aconteceu durante a Revolução Francesa, quando os “revolucionários” tocaram o que ficou conhecido como Terror e centenas foram guilhotinados em praça pública. Chegando no Brasil, não foi diferente quando da Inconfidência Mineira: Tiradentes, esquartejado, foi exibido aos populares. No Iraque, Saddam Hussein executado. E por aí vai.

É bem verdade que a nossa exibição de troféus é um pouco diferente. Ontem, por exemplo, em uma roda de amigos, o papo foi o fim de semana e quão produtivo ele havia sido para cada um. Eis que em um determinado momento, um dos amigos, sabendo que temos gostos parecidos, sacou o telefone celular e começou a exibir os tipos que ele saberia que me atingiriam em cheio. Eram caras que ele já havia ficado. Lindos, por sinal. De certa maneira, meio que senti que estava visitando a sala de troféus do meu amigo.

Digo isso sem a menor pretensão de colocá-lo em um julgamento – até porque minutos depois estava eu mostrando o motivo do meu sorriso (o perfil de um certo nerd lindo no Orkut e no Twitter). Eu não estou querendo vestir a máscara da pureza e ingenuidade “pollyanica/sandystica” de ser. Mas, em algum momento que eu não sei identificar bem, na sociedade em que vivemos, escolheu-se aplicar à vida sentimental os mesmos conceitos de produtividade inseridos pela Revolução Industrial. Nessa, resolvemos quantificar tudo: o amor, o gozo, a felicidade. A hora em que alguém chegar a essas variáveis, por favor, avise-me. Por enquanto, eu prefiro sorrir vendo o perfil daquele lindo de quem acabei de falar.

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6 Comentários:

Às 15 de julho de 2009 04:22 , Blogger O VIADO E A TRANSGRESSÃO POÉTICA disse...

Ou reproduzimos perfeitamente TODO o padrão de comportamento do macho heterossexista e patriarcal, que exibe suas conquistas, fala que já comeu essa ou aquela, igualmente como troféus, todos de gosto muito duvidoso???
aí eu me pergunto: quem disse que a homossexualidade é transgressora ou revolucionária, se segue literalmente as "aulas" dadas pelo papai macho latino? Estamos acrescentando que inovadora discussão ao mundo? Lutamos por "Direitos Iguais" ou pelo "direito" de sermos exatamente iguais, sem tirar nem pôr, nas paqueras, nas boates, nas relações de amizade, nos puxar de tapetes das relações profissionais, na inveja e na vaidade...?
Beijos,
Ricardo
aguieiras2002@yahoo.com.br

 
Às 15 de julho de 2009 20:12 , Blogger Guy Franco disse...

Gosto disso. De visitar a sala de troféu dos meus amigos. Saber de onde vem cada um deles, como conseguiu, como estava o dia.

 
Às 15 de julho de 2009 22:07 , Blogger Diego Brito diego.botadentro@yahoo.com disse...

Conheço alguns lugares em que não se expõe o companheiro dessa forma, mas exatamente o contrário: denigre-se. As mulheres só falam desvantagens dos maridos e vice-versa. Assim os outros não ficam com vontade ;) Esperto, não?

 
Às 15 de julho de 2009 23:11 , Blogger Diego Brito diego.botadentro@yahoo.com disse...

Apesar q isso é só um jeito de lidar com o troféu, né? Denegri-lo pra tirar os outros competidores do jogo...mas sabe o q eu tava lembrando? A maioria das espécies grupais tem esse tipo de comportamento. Em boa parte dos primatas, quem caça mais e melhor fica com a maior parte da comida, e ganha mais chances de destronar o chefe, e ganhar os paparicos das fêmeas...Os leões q são mais fortes e ganham a luta viram os chefes, e tem o direito de copular com outras fêmeas...e machos =B
Talvez esse comportamento tenha uma boa raiz biológica, né?

 
Às 16 de julho de 2009 11:10 , Blogger O VIADO E A TRANSGRESSÃO POÉTICA disse...

Diego,
só lembrando: há mulheres e mulheres, não sei se generalizar dá certo sempre, não sei se TODAS diminuem seus maridos, penso que não. E penso , também, que o machismo e o patriarcalismo faz muitas delas terem razão, infelizmente.
Bom dia!
Ricardo
aguieiras2002@yahoo.com.br

 
Às 16 de julho de 2009 13:44 , Blogger uomini disse...

Este texto foi tão delicioso quanto o outro. Adorei!

 

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