Muita gente costuma acusar jornalistas de serem corporativistas. Tal pérola vive na boca e nas linhas de Diogo Mainardi, toda vez que pretende atingir em cheio o ego da categoria. Outros, acusam-nos de mentirosos, inventores e autores de histórias de ficção. Hoje, sinto-me confortável, como jornalista, para criticar a minha profissão. E vai sobrar para alguns colegas de profissão que admiro e outros que são meus amigos (não acho necessário ficar citando o nome de toda a galera e espero que o pessoal não se chateie com as anotações).
A impressão que eu tive, ao ler os jornalões e os jornaizinhos de hoje, é que o pessoal não está conseguindo enxergar a resposta a uma pergunta clássica do Jornalismo: o que é a notícia? Em uma síntese das leituras básicas de quem estuda para ser jornalista, eu posso chegar à conclusão de que notícia é a matéria-prima da nossa atividade, um fato reconhecido como socialmente relevante a ponto de merecer publicação. São fatos políticos, sociais, econômicos, culturais, naturais. Devem afetar indivíduos ou grupos significativos. Costuma-se dizer que notícia é fato quente porque é preciso que tenha acabado de acontecer, ou que ainda não tenha sido divulgada por nenhum veículo.

A impressão que eu tive, ao ler os jornalões e os jornaizinhos de hoje, é que o pessoal não está conseguindo enxergar a resposta a uma pergunta clássica do Jornalismo: o que é a notícia? Em uma síntese das leituras básicas de quem estuda para ser jornalista, eu posso chegar à conclusão de que notícia é a matéria-prima da nossa atividade, um fato reconhecido como socialmente relevante a ponto de merecer publicação. São fatos políticos, sociais, econômicos, culturais, naturais. Devem afetar indivíduos ou grupos significativos. Costuma-se dizer que notícia é fato quente porque é preciso que tenha acabado de acontecer, ou que ainda não tenha sido divulgada por nenhum veículo.
Feita a iniciação sobre a temática, voltemos ao assunto principal: o enfoque dado pelos jornais paulistanos a respeito da maior Parada do Orgulho LGBT do mundo, a de São Paulo – que aconteceu ontem e, para variar, reuniu mais de 3 milhões de pessoas na Paulista. Vamos às chamadas dos principais jornais de circulação em São Paulo: Parada Gay tem tumulto e brigas (O Estado de S. Paulo), Sem trios de boates, política avança na Parada Gay de SP (Folha de S. Paulo), Confusões marcam a Parada (Jornal da Tarde), Parada Gay de São Paulo teve até príncipe indiano (Diário de S. Paulo), Festa da Parada Gay tem tumulto e violência (Agora SP). Dos jornais gratuitos: Parada Gay: A alegria de sempre (Metrô News), Frio não espanta multidão e Parada Gay lota a Paulista (Destak SP) e Parada Gay reúne 3,5 mi (PubliMetro). Vou me ater aos “abres” das matérias dos dois principais jornais (Folha e Estadão) até para não deixar esse texto gigantesco.

O Estadão, em um texto assinado por Monica Cardoso, Vitor Hugo Brandalise, Rodrigo Brancatelli, Felipe Oda, Luisa Alcalde e Naiana Oscar (quase todos meus amigos, de quando eu trabalhava no estadão.com.br), falou do tumulto e das brigas. Veja o primeiro parágrafo da matéria: “Não adiantou o esquema de "Big Brother" com câmeras nem os 300 seguranças patrimoniais contratados. Mesmo com um número menor de participantes - os organizadores trabalhavam ontem com o número inicial de 3,5 milhões, mas a estatística oficial só será registrada hoje -, a 13ª edição da Parada do Orgulho Gay, na Avenida Paulista, foi marcada ontem por brigas, confusões, empurra-empurra, desmaios e furtos. Apenas em três locais, 120 carteiras foram encontradas.”
No penúltimo parágrafo, a matéria citava: “Na dispersão, alguns participantes continuaram a festa na Avenida Dr. Vieira de Carvalho, em Santa Cecília, por volta das 22h. Incomodado com o barulho, um morador jogou uma bomba caseira sobre o grupo. Segundo a Polícia Militar, 30 pessoas ficaram feridas.” Teria sido interessante citar que a Vieira de Carvalho é um dos principais pontos de convivência de gays de São Paulo, que reúne diversas categorias de homossexuais – dos pobres aos ricos, dos feios aos bonitos, e assim por diante.
No penúltimo parágrafo, a matéria citava: “Na dispersão, alguns participantes continuaram a festa na Avenida Dr. Vieira de Carvalho, em Santa Cecília, por volta das 22h. Incomodado com o barulho, um morador jogou uma bomba caseira sobre o grupo. Segundo a Polícia Militar, 30 pessoas ficaram feridas.” Teria sido interessante citar que a Vieira de Carvalho é um dos principais pontos de convivência de gays de São Paulo, que reúne diversas categorias de homossexuais – dos pobres aos ricos, dos feios aos bonitos, e assim por diante.
Na Folha de S. Paulo, uma reportagem assinada por Daniel Bergamasco abriu o caderno Cotidiano dando conta da “politização” do evento pelo simples fato de as boates gays terem desaparecido da Parada, por causa das taxas que precisam ser pagas (o que já ocorreu no ano passado, diga-se de passagem). Na página 3 do caderno, outro texto, de Fábio Takahasi, informava sobre a existência de brigas, furtos e até uma bomba prejudicando o clima de festa. O texto afirma: “Excesso de álcool, brigas, furtos e até uma bomba caseira contrastaram com a festa vista ontem na Parada Gay. No episódio mais grave, por volta das 22h, o morador de um edifício na avenida Vieira de Carvalho (centro) se irritou com o barulho de pessoas que dispersaram da festa e jogou uma bomba caseira no grupo. Segundo a Polícia Militar, 30 pessoas ficaram levemente feridas pelo artefato. O morador não foi identificado. Outras cenas de violência ocorreram principalmente após a passagem dos trios elétricos. Próximo ao cemitério da Consolação, a Folha presenciou três brigas em apenas dez minutos”.
A minha primeira pergunta: se a Folha presenciou a ocorrência de três brigas em apenas dez minutos, por que não investiu nesse fato? A segunda pergunta: não é possível que todo esse pessoal (que é de primeira linha, gente competente para caramba) que apurou pelo menos 30 feridos (hoje são 59), um cidadão ferido com 20 facadas (segundo reportagem do UOL), outro espancado (até o Datena mostrou as cenas do espancamento de algumas pessoas na região da rua Frei Caneca), não tenha sacado que o mote da cobertura deveria ter sido mais incisivo. Minha gente, na maior Parada Gay do Mundo, 59 pessoas ficaram feridas. A mesma Parada que no ano passado presenciou a morte de um turista francês – assassinado a facadas, lembram? Ninguém lembrou disso nos jornalões. Nem nos jornais gratuitos.
Existem respostas para essas perguntas. Não. Justificativas: ontem estava tudo muito disperso; ontem faltou informação mais detalhada das autoridades e hoje essa informações ficaram mais claras; falta de tempo (afinal as rotativas giram e o jornal tem que sair no horário marcado da gráfica). São todas hipóteses verdadeiras. Só que elas não explicam um fato: por que as matérias preferiram falar que a bomba jogada contra pessoas na Vieira de Carvalho teria sido jogada por causa do barulho da Parada. Tanto que hoje, já há quem diga que a polícia está investigando. Ninguém pode afirmar se isso foi um atentado. Mas, serei mais claro: a polícia está investigando a possibilidade da bomba ser um ato de preconceito, homofobia, atentado mesmo. Será que alguém questionou em quanto tempo é possível preparar um artefato desse? É algo que se faz em 15 minutos, depois de ter ficado puto com um barulho maior na porta de casa? Ou é algo que toma tempo, ou seja, que precisou ser feito com alguma antecedência/planejamento. Isso já denotaria de imediato homofobia. Estou viajando?
A minha primeira pergunta: se a Folha presenciou a ocorrência de três brigas em apenas dez minutos, por que não investiu nesse fato? A segunda pergunta: não é possível que todo esse pessoal (que é de primeira linha, gente competente para caramba) que apurou pelo menos 30 feridos (hoje são 59), um cidadão ferido com 20 facadas (segundo reportagem do UOL), outro espancado (até o Datena mostrou as cenas do espancamento de algumas pessoas na região da rua Frei Caneca), não tenha sacado que o mote da cobertura deveria ter sido mais incisivo. Minha gente, na maior Parada Gay do Mundo, 59 pessoas ficaram feridas. A mesma Parada que no ano passado presenciou a morte de um turista francês – assassinado a facadas, lembram? Ninguém lembrou disso nos jornalões. Nem nos jornais gratuitos.
Existem respostas para essas perguntas. Não. Justificativas: ontem estava tudo muito disperso; ontem faltou informação mais detalhada das autoridades e hoje essa informações ficaram mais claras; falta de tempo (afinal as rotativas giram e o jornal tem que sair no horário marcado da gráfica). São todas hipóteses verdadeiras. Só que elas não explicam um fato: por que as matérias preferiram falar que a bomba jogada contra pessoas na Vieira de Carvalho teria sido jogada por causa do barulho da Parada. Tanto que hoje, já há quem diga que a polícia está investigando. Ninguém pode afirmar se isso foi um atentado. Mas, serei mais claro: a polícia está investigando a possibilidade da bomba ser um ato de preconceito, homofobia, atentado mesmo. Será que alguém questionou em quanto tempo é possível preparar um artefato desse? É algo que se faz em 15 minutos, depois de ter ficado puto com um barulho maior na porta de casa? Ou é algo que toma tempo, ou seja, que precisou ser feito com alguma antecedência/planejamento. Isso já denotaria de imediato homofobia. Estou viajando?







9 comentários:
Além da cobertura da violência na Parada ter sido muito suave (parece que os fatos só começaram a se revelar no dia seguinte) ainda há mais um agravante que pode deixar essa história cair no esquecimento ou não ser esclarecida. Nenhum dos feridos pela bomba quis ser registrado em boletim de ocorrência como vítima. Muito provavelmente para não terem suas identidades reveladas em um documento que é público.
Em outras palavras, essa decisão das vítimas é mais um efeito do preconceito a que são expostas. Não é só uma bomba, que pode ter sido um ato de homofobia sim, que prejudica. Há outras ações mais silenciosas, mas tão perigosas quanto, que chegam ao cúmulo de impedir que gays façam um registro oficial da violência a que foram expostos.
tipico da midia brasileira divulgar o que bem entende e omitir o que é relevante
sinceramente, acho que isso é um reflexo da força perdida...
Eu ainda tenho por mim que existe algo mais nesta história, um tipo de 'golpe de estado' contra a parada, para que a prefeitura passe a organiza-la.
Porem alem da violencia, dou gracas pelos jornais nao terem noticiado por exemplo cenas de sexo entre os gays nos cantos da praça da republica ou em alguns cantos, em alguns casos na frente de crianças desavisadas, como presenciei rapidamente.
Saudades da minha primeira parada (3a parada c nao me engano) em q as pessoas eram + politizadas, não era pop e quem ia se respeitava.
Qto a violencia e roubos, era algo a se esperar que acontecesse principalmente nos entornos. E sei lá, se a policia c metesse, o que o movimento diria? Diria que se meteram por preconceito... fato!!!
bjs do Lico
PARABÉNS pela apuração e pelo embasamento. Você disse justamente o que os jornais e jornalistas não quiseram dizer, por medo ou omissão. Não se faz uma bomba caseira em alguns minutos - acredito eu. Se há uma falsa sensação de expressão da homossexualidade, neste ano podemos ver que as coisas não são tão belas, ou simples assim.
Grande Abraço.
Amig@s!
apenas reproduzo aqui uma carta de um leitor, heterossexual, que foi na Parada SP este ano, para refletir:
Painel do Leitor
16/06/2009 - 02h30
Parada Gay
da Folha Online
Parada Gay
"Tenho 53 anos, sou baiano, heterossexual e casado há 25 anos com a mesma mulher. Moro em São Paulo há 33 anos e resolvi ir á Parada Gay na av. Paulista. Ao abrir os jornais 'O Estado de S. Paulo' e a Folha fiquei surpreso com as reportagens negativas em relação à parada.
O que vi foi uma festa alegre, divertida e com a participação de várias famílias com seus filhos se divertindo, tirando fotos e, é claro, também outros que preferem beber além da conta, causando confusão. Apesar de ser a minoria, a imprensa preferiu dar mais espaço a esses acontecimentos do que mostrar as coisas boas, me fazendo crer que os jornalistas que escreveram as reportagens provavelmente estão sofrendo de homofobia, e isso é muito ruim para o movimento que tenta conquistar seus direitos como cidadãos que pagam impostos.
O mais estranho é que as reportagens não trazem nenhuma foto das confusões, talvez porque seus fotógrafos, como eu, não tenham visto esses problemas.
Tudo bem que isso não quer dizer que não existiram mas, com certeza, é muito mais seguro você ir a Parada Gay do que frequentar o carnaval de Salvador --minha terra--, estádios de futebol ou andar tranquilamente pelas ruas de São Paulo sem o perigo de ser assaltado, sequestrado e morto. Fico muito mais preocupado com meu filho quando ele sai para uma balada --como todo jovem de 21 anos-- do que se ele fosse participar da Parada Gay."
GRIMA GRIMALDI (São Paulo, SP)
Ricardo
aguieiras2002@yahoo.com.br
Quando eu soube do ocorrido (da bomba), de imediato pensei em um atentado homofóbico, porque é muita coincidência isso ocorrer no dia da Parada. Isso para mim é tão óbvio que me assusta que a imprensa - e as autoridades - não vejam isso.
Pelo que sei a questão da bomba deve ser investigada pelo DECRADI (Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância). Os outros casos, aparentemente, também serão investigados pelo DECRADI e a Associação da Parada e outros estão exercendo pressão para que haja uma investigação mais profunda.
Tive a informação também de que foram feitos 16 boletins de ocorrência por conta da bomba.
Claro que isso foi homofobia. A presença maior de pessoas na Vieira, ou mesmo o barulho, podem ter incomodado. Mas a bagunça na Vieira foi muito pior na Virada Cultural e não lembro de terem jogado nenhuma bomba nas pessoas.
ng joga uma bomba apenas pelo barulho
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