botadentro: Homossexual espancado por carecas após Parada Gay de SP morre

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17/06/2009

Homossexual espancado por carecas após Parada Gay de SP morre

Quase dez anos depois do emblemático caso de assassinato motivado por homofobia em São Paulo (do adestrador Edson Néris da Silva), a Capital registra mais uma morte gerada pela intolerância a homossexuais. A Santa Casa de Misericórdia de São Paulo confirmou, no início da noite desta quarta-feira, a morte de Marcelo Campos Barros, de 35 anos. O rapaz, que é cozinheiro, teve morte cerebral motivada por traumatismo craniano.

Testemunhas afirmam que ele foi espancado por um grupo de carecas, no domingo à tarde, na Rua Araújo, no Centro. A agressão aconteceu nas imediações da dispersão da 13ª Parada do Orgulho Gay de São Paulo, no domingo. O caso foi registrado no 4º Distrito Policial (Consolação), mas deverá ser apurado pela Decradi (Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância). Poucas são as informações a respeito da morte do rapaz. Segundo a coordenadora da Diversidade Sexual da Capital, Irina Bacci, que teve contato com amigas dele, Barros não compareceu à Parada.

As únicas informações que o CRD conseguiu reunir a respeito do caso dão conta de que ele havia saído da Vila Madalena, na Zona Oeste, para se encontrar com um amigo, na região da Rua Araújo. Nesse ínterim, ele teria encontrado um grupo de carecas, que iniciou a agressão. “No sábado, ele compareceu a um churrasco e comentou com os amigos que não iria à Parada, por causa da violência. Mesmo assim foi vítima da homofobia. É um caso muito triste para a cidade”, relata Irina.

O rapaz fazia parte da escola de samba Pérola Negra. Nenhuma manifestação está planejada para o velório dele, pois sua família é Testemunha de Jeová. "As amigas dele disseram que ele era muito querido na comunidade dele. Eles não pretendem deixar isso quieto", disse Irina. Outra informação coletada com as amigas da vítima dá conta de que quando o rapaz foi socorrido, apenas seu celular havia desaparecido. Hoje, as garotas tentaram falar no número e uma pessoa teria atendido à ligação. Durante a conversa com elas, o rapaz teria dito que comprou o chip na feira do rolo que acontece nas imediações do Anhangabaú – de três rapazes fortes, brancos e carecas.

Manifestações – O anúncio da morte do rapaz está fortalecendo a realização de uma manifestação de associações de defesa dos direitos LGBT. No sábado, dia 20, o Corsa e o Fórum Paulista LGBT deverão se unir à APOGLBT, em um protesto que deverá acontecer na Avenida Doutor Vieira de Carvalho (a partir das 19h). O ato deverá acontecer no local onde, no domingo, explodiu uma bomba caseira que feriu mais de 30 pessoas. A polícia está investigando as circunstâncias da explosão, na tentativa de identificar se o ato foi um atentado homofóbico. A Decradi ainda não se manifestou a respeito do ocorrido.

Segundo o comunicado oficial da APOGLBT (Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo), a edição deste ano reuniu 3,1 milhões de pessoas. Neste ano, uma série de agressões ganhou destaque. Ao todo, 53 pessoas ficaram feridas. O caso que chamou mais atenção foi a explosão da bomba caseira. Há ainda pelo menos outros três casos de pessoas que permanecem internadas em hospitais da Capital, por conta das agressões. Dois na Santa Casa e um no Hospital das Clínicas. Um deles é o adolescente de 17 anos que teve politraumatismo na face. Segundo a Santa Casa, ele não corre risco de morrer. De acordo com boletim de ocorrência registrado no 4º Distrito Policial, M.P.S foi agredido por um grupo quando estava na esquina da Rua Dona Antônia de Queiroz com a Frei Caneca. Testemunhas relataram que o adolescente ficou caído no chão até a polícia chegar.

No início da tarde, a APOGLBT emitiu um comunicado oficial lamentando o ocorrido. O documento diz: “As agressões após a Parada de 2009 mostram claramente o quanto é necessário aprovar uma lei que criminalize esses absurdos. Esses casos ganham destaque no dia da Parada, mas acontecem todo dia, sem que autoridades se pronunciem. Dessa forma, a 13ª. Parada do Orgulho LGBT de São Paulo revelou sua importância como estratégia de pressão por aprovação de direitos de uma população discriminada”.

Memória – Edson Néris da Silva foi assassinado na madrugada de 6 de fevereiro de 2000, quando passeava de mãos dadas com seu companheiro, Dario Pereira Netto, na Praça da República. Eles foram surpreendidos por um grupo pertencente aos Carecas do ABC. Dario conseguiu escapar, mas Edson foi espancado barbaramente a chutes e golpes de soco-inglês. A Polícia chegou a deter 18 suspeitos, duas delas mulheres. No julgamento, alguns receberam penas brandas por somente participar do ataque, outros, condenados até 21 anos de prisão pela acumulação de crime de formação de quadrilha com o de homicídio triplamente qualificado. Graças à progressão das penas, todos já estão em liberdade. Na Parada Gay de 2007, o turista francês Grégor Erwan Landouar também foi assassinado após ir à parada gay. Grégor foi esfaqueado diversas vezes por quatro desconhecidos ao sair do bar Ritz e morreu pouco depois em um hospital da capital paulista. O autor do crime, o punk Genésio Mariuzzi Filho, de 23 anos, apelidado de Antrax, foi detido. O rapaz, da gangue Devastação Punk, confessou ter praticado o crime para descontar a raiva por seu grupo ter perdido uma briga com uma gangue rival. Durante o julgamento, ele afirmou que "deu azar" porque o caso foi amplamente divulgado pela mídia. Ele foi condenado a 27 anos e seis meses de detenção.

15 comentários:

ALESSANDRO disse...

incrivel ver que nem mesmo na parada gay estamos livres da violencia do dia a dia contra os gays

Nina Ferri niferri@gmail.com disse...

Que merda! Que triste episódio. Lamentável, mas infelizmente estamos colecionando casos de intolerância no País, acompanhados de impunidade.Mesmo assim ainda há um grupo forte e grande de parlamentares que insistem em não aprovar o projeto de lei complementar 122/06, que criminaliza a homofobia. Se nem a morte de uma pessoa for uma justificativa suficientemente forte para aprovação da proposta, então não sei mais o que pensar do mau País.

O VIADO E A TRANSGRESSÃO POÉTICA disse...

Já não penso mais nada, faz tempo... estou estranho, abalado, mais chocado e perplexo que triste. Poderia ter sido eu, Estava hospedado com minha irmã na Maria Antonia, virei antes do final da parada, mera sorte, quem escapa dessas é mera sorte...
Não confio mais na aprovação da PL122, nem no casamento gay nem acho que o Brasil vai deixar tõ cedo de ser o campeão mundial de assassinatos de gays. Penso que deveríamos pedir Asilo Político coletivo... até nossos irmãos latinos já aprovaram essas leis e Direitos e ainda obrigaram as Forças Armadas a aceitarem e a respeitarem @s homossexuais, sem esse papo de "conferências" que não levaram a nada. Toda a nossa militância está minada e corrompida pelo partidarismo e não temos mais autonomia. Viver no medo? Sair de casa sem saber se volta? já sinto isso faz tempo, desde a morte do Édson, há dez anos..... estou tonto, enojado , envergonhado. Cansei-me da cara sorridente do Lula segurando nossa bandeira, enquanto nada temos em nossa defesa, nada! O Haiti é aqui...
hoje não vou beijar ninguém,
Ricardo
aguieiras2002@yahoo.com.br

POEMA PARA UM DOMINGO TRISTE
Neste domingo carregado
Apesar do sol vejo sombras
Vejo vidas ceifadas
Vejo tua incompreensão instalada

Eu poderia abrir as janelas
É verdade que todas abrem para o infinito
No entanto, cerro as cortinas
Vã esperança de algum conforto

Para onde olho vejo lápides
Não há inscrições nelas
As mãos se cansaram de gravar na pedra
O que carregam em seus corações dilacerados

Lá fora é um cemitério
Dos corpos moços que nunca viveram
Aqui dentro também é
Almas e corações enclausurados

Se fosse em outro país talvez eu visse a neve
Debaixo dela teria muitos assassinados?
O rapaz que amou o rapaz
A moça que amou a moça
Jazem no frio do amor irrealizado
(Debaixo deste sol também há mortos)

Posso bater na sua porta neste triste domingo
Ela não se abrirá
Você olhará pelo olho mágico
E me negará o convívio no seu temor

E amanhã, segunda-feira desesperada
Saio por não aguentar tanta dor
Bebo num bar a minha alma destilada
E espero, espero, espero
A próxima facada

João V!ctor disse...

A única coisa q consigo pensar, mesmo parecendo egoísmo, é "poderia ter sido eu!" E isso assusta pra caralho!

Markus disse...

Sofrível... Infelizmente o estarrecimento toma conta de todos, e continuamos indefesos. Paga-se o preço pela visibilidade, mas a este custo( a própria vida), tudo se torna inviável.
Torço pela melhoria das coisas, ao mesmo tempo, temos de permencer cada vez mais distantes.

Editor Nilton Fernando disse...

vale lembrar que o Campos era cozinheiro. Segundo amigos, ele não estava na festa da Av Paulista.

Ele desfilava pela escola de samba Pérola Negra e era reconhecido pelos amigos pela solidariedade.
abraços

nilnewsonline.com

André Campos disse...

Que tristeza. Numa hora dessas não vale dizer muita coisa. Dá vontade de desaparecer, ir pra bem longe.
.......

Jorge de Lima disse...

A Paz!

Escrevo emocionado: soube hoje pela TV da morte de Marcelo Campos Barros em virtude de espancamento ocorrido na Praça da República, no domindo da Parada Gay.

Marcelinho, como era conhecido, foi meu colega de classe (Escola Brasilio Machado) durante todo o ginásio (atual Ensino Fundamental). Era criatura doce, gentil e incapaz de matar uma mosca. Sua mãe, dona Elisa, me mandava lanche por ele, para que eu tivesse o que comer no recreio (pois eu nunca tive condições de levar lanche para a escola).
Um estudante brilhante e dedicado.

Fiquei estarrecido ao saber da forma brutal da sua morte e do paradoxo de isso acontecer justamente no encerramento da 13a. Parada do Orgulho LGBT -- evento que ocorre regularmente na cidade de São Paulo e que teve como mola propulsora a morte do adestrador de cães Edson Neris, na mesma Praça da República e da mesma forma: espancamento.

Lamentavelmente, a Parada Gay e todas as nossas demais conquistas ficam diminuídas cada vez que um crime desses acontece (e no centro da terceira maior cidade do planeta!).

Essa tragédia humana é uma bofetada na face da comunidade que luta para receber respeito e tolerância. Esse acontecimento funesto precisa repercutir de modo monumental, para que os covardes que se escondem sob o anonimato das multidões sejam punidos e seus seguidores sejam desistimulados.

A impunidade e, principalmente, a indiferença são o combustível para que coisas hediondas como estas continuem acontecendo entre nós.

...

Multiplique a indignação. Cobre por justiça. Ore a Deus: faça como puder e preferir, mas não cruze os braços.

Fique com Deus.

Jorge de Lima [Diácono - CCNE]
joralima@usp.br

All Gay disse...

Além do que já foi dito nos demais comentários (com os quais concordo), quero registrar aqui como fiquei enojado na manhã de hoje, quando acessei o espaço para comentários sobre essa mesma notícia no site do 'Estadão' e um homofóbico se mostrou feliz com a morte "menos um", comemorou. É duro admitir, mas tem muita gente comemorando essa morte e torcendo por outras (talvez até para o próximo sábado à noite, quando a militância vai fazer seu protesto cntra a tal bomba homofóbica). Que Deus nos proteja.

marcelo sguerri disse...

A PARADA GAY HOJE SIGNIFICA RISCO DE VIDA A QUEM PARTICIPA DELA .NOSSO LEGISLATIVO ESTA ASSASSINANDO ESTAS PESSOAS POR OMISSÃO DE SOCORRO COM A AUXENCIA DE LEIS RIGIDAS QUE ACIMA DE TUDO TRAGA RESPEITO Á INTEGRIDADE DA PESSOA HUMANA. AGORA ME VEM O PREFEITO DA CIDADE E PROVAVELMENTE DEVIDO A PRESSÃO DE HOMOFÓBICOS NO GOVERNO SE APROVEITA DOS ULTIMOS ACONTECIMENTOS TRAGICOS NA PARADA GAY PARA DESLOCAR A MESMA PARA OUTRO LUGAR! E O QUE DIZER DA PARADA DE NOSSO DIA DIA? VAMOS DESLOCAR NOSSAS VIDAS PARA O ANHEMBI OU COISA PARECIDA TAMBEM??? A COMUNIDADE GAY PEDE URGENCIA NA APROVAÇÃO DE LEIS POR SIMPLES QUESTÃO DE SOBREVIVENCIA. DEVERIAMOS REALIZAR PARADAS SURPRESA SEM PATROCINIO OU COISA PARECIDA , FAZER PRESSÃO DE VERDADE, IR ATÉ O PLENARIO E DAR ESCANDALO ENQUANTO NÃO SOMOS OS PROXIMOS A MORRER NUMA DESTAS PARADAS .

Felipe disse...

Com erros ou defeitos não deixamos de ser Humano, Primeiro que ser Homossexual não é defeito...E se for quem é o ser humano para falar o q é certo ou errado? Um nada temos direito de ser e viver do jeito que quisermos, e temos sim que batalhar pelos nossos direitos.

Kaio disse...

Estou chocado muito chocado mesmo,estavamos neste domingo no churrasco de minha irmã e uma prima festejando o aniversário delas qunado claudia falou vou embora conversamos mais um pouquinho ele saiu e na segunda feira a claudia me liga dando a noticia que estava no hospital.Muito gente fina,inteligente educado...meu Deus.

BigBrandl disse...
Esta postagem foi removida pelo administrador do blog.
marizinha disse...

Mariana Lopes, São Paulo, 19 anos
O Marcelo era uma pessoa linda, cozinhava como ninguém.
Me lembro do meu aniversário de 18 anos que passamos na praia, ele era primo de meu ex namorado, ganhei dele uma comemoração na mesa que estavamos, com direito a caipirinha de KIWI.
Ele me convenceu a ir na quadra da pérola ver o ensaio.

Sentirei saudades primo, fica com Deus e ora por nós da onde vc estiver!

marizinha disse...

Mariana Lopes, São Paulo, 19 anos
O Marcelo era uma pessoa linda, cozinhava como ninguém.
Me lembro do meu aniversário de 18 anos que passamos na praia, ele era primo de meu ex namorado, ganhei dele uma comemoração na mesa que estavamos, com direito a caipirinha de KIWI.
Ele me convenceu a ir na quadra da pérola ver o ensaio.

Sentirei saudades primo, fica com Deus e ora por nós da onde vc estiver!

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