Um duelo entre o amor e a arte. Assim é a paixão vivida pela artista plástica Bárbara Oliveira (Stefane Ribeiro) e pela atriz Nina Maya (Nadja Dulci), contada em
'O Móbile: Admiração', curta-metragem com roteiro e direção de Lilian Werneck, lançado neste mês. Com 25 minutos de duração, o filme (apoiado pela Lei de Incentivo à Cultura Murilo Mendes, de Juiz de Fora/MG) é o primeiro de uma série de cinco histórias. Além de Admiração, os roteiros de Diálogo, Confiança, Apoio e Perdão trazem como tema a homossexualidade feminina.
Na entrevista que Lilian Werneck concedeu ao
Bota Dentro, a autora fala do processo de criação do filme e de como produções artísticas podem ajudar a dar visibilidade para o tema. Lilian, que também é jornalista, defende tanto a ideia de informar sobre a homossexualidade que já disponibilizou seu filme na internet para download (
aqui), uma iniciativa extremamente generosa, já que o curta acabou de ser lançado.
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Aliás, com O Móbile Lilian deixa claro que o caminho é mesmo tornar comum. Tanto que o DVD do filme (que pode ser comprado pelo email omobileadmiracao@gmail.com, por R$ 15) tem a tarja de Creative Commons, que permite copiar, compartilhar e exibir o filme a vontade.
Depois do lançamento em Juiz de Fora, agora Lilian negocia a exibição do filme em outras cidades e faz planos para os próximos roteiros que já estão escritos (ela já antecipou aqui como são as histórias, com dez personagens centrais), mas ainda precisam de captação de verba para serem produzidos.
A seguir os principais trechos da entrevista.
Inspiração para o filmeClaro que em cada uma das histórias há um pouco de mim, na verdade, cada uma das personagens sou eu. Meio absurdo falar isso, mas pense numa geminiana que você vai entender. Pense também numa mulher de 31 anos que aos 16 assumiu sua homossexualidade para os pais e para o mundo. Pense em alguém que nunca deixou de viver seus sonhos e, muitas vezes, sofreu por isso. Mas pense também em uma menina que nunca se arrependeu de nada. Penso nisso e lembro-me de mim, lembro de muitas amigas, lembro de várias pessoas que passam por isso todos os dias. E, sim, cada uma das histórias retrata um pedaço da minha vida. Minhas histórias não são únicas, não são as primeiras, não serão as últimas. Mas tenho certeza que muita gente já compartilhou das mesmas experiências que eu. Por isso é muito importante pra mim descrevê-las, mesmo que com outras “roupas” em O Móbile.
Abordagem do temaA dificuldade maior foi contar para minha mãe que ia fazer não um, mas vários filmes sobre o amor entre mulheres. Foi uma luta interna. A gente sempre tem uma trava quando vai falar abertamente sobre isso. Lembro-me, estávamos no carro, voltando pra casa, e eu simplesmente falei. “Mãe, não quero que você fique preocupada, mas escrevi alguns roteiros sobre a homossexualidade feminina e vou transformá-los em filmes”. Ela simplesmente olhou para o lado e riu. Minha mãe é a mulher mais maravilhosa que conheço e, como tenho uma postura muito positiva sobre a homossexualidade, nunca me viu como algo “anormal”, ou como “fase que passa”. Quando ela viu o filme pela primeira vez, teve exatamente a reação que eu espero que todas as pessoas tenham. Disse “você conseguiu falar de um tema tabu com tanta sensibilidade, com tanta delicadeza, que é lindo ver a história das duas, é emocionante”.
Homofobia e medoFalar sobre um universo tão meu e tão querido por mim me tornou mais forte. Com o filme, perdi o medo de falar sobre isso, me envolvi mais no movimento, conheci de perto os medos das mulheres em se assumir, permiti que outras mulheres se aproximassem para falar também de seus problemas e preocupações, abri mais espaço na minha vida para o assunto. E assim pretendo continuar seguindo, trabalhando cada vez mais com o tema. Porque precisamos que as pessoas falem sobre isso para que essa coisa inexplicável chamada homofobia acabe de vez. Quanto mais se fala, menos medo existe.
Admiração, diálogo, confiança, apoio e perdãoAs histórias em si não têm nenhuma relação uma com a outra, a não ser o objeto móbile que cada personagem tem. Em Admiração, Nina e Bárbara são artistas e a arte fala mais alto que o amor. Já na segunda história, Diálogo, Ísis é uma mulher casada, mais velha, desiludida, que se apaixona novamente pela vida e por ela mesma quando conhece pela internet Stela, uma jovem arquiteta lésbica apaixonante. Confiança traz a história de Clara e Olívia, duas adolescentes com necessidades especiais. Clara é surda, Olívia é cega e elas se apaixonam profundamente através do toque. Já Apoio traz duas senhoras que estão juntas há 51 anos, Anita e Sofia, uma escritora e uma jardineira. É uma história de amor e morte, muito bonita, mas muito triste. A última história, Perdão, mostra a cantora Malu Cordeiro e sua namorada, a fotógrafa Renata, vivendo um conflito imenso quando Malu engravida do baixista da sua banda. Como amar sem perdoar? Essas histórias são retratos de um móbile em movimento. Para mim, o amor é um móbile, um movimento constante, cheio de tramas diferentes e que a cada momento adquire uma nova forma.
Comunicar, tornar comumMeu objetivo maior com esse e com os outros filmes é comunicar, ou seja, tornar comum. Sempre acreditei que quanto mais se fala no assunto, de forma ética, melhor as pessoas encaram o assunto. O preconceito existe muitas vezes por medo. Medo do desconhecido. Quando nos deparamos com uma situação de frente, enfrentamos nossos medos. É isso que quero, mostrar, exibir, falar do assunto. Com o filme tem acontecido isso. As pessoas “esquecem” que são duas lésbicas e se prendem na história delas, nas dificuldades amorosas, acham uma pena a forma como termina, se comovem! Mesmo quem a princípio não aceita. O curta metragem é uma ótima ferramenta nesse sentido porque é exibido em festivais, com público aberto. Ou seja, todos têm oportunidade de ver e questionar. E se questionar: por que é tão difícil aceitar que homens amam homens e mulheres amam mulheres?
E
stereótipos da sociedadeUma das maiores lutas do movimento lésbico é pela visibilidade. Isso porque os homens gays sempre se mostraram mais, de várias formas, e no contexto da sociedade paternalista que vivemos, a mulher sofreu muito para conseguir seu lugar. Claro que hoje em dia as coisas são muito diferentes, os vários movimentos sociais pelo respeito às mulheres fizeram grandes avanços e a mulher já tem um lugar mais claro na sociedade. Mas ainda temos muito a alcançar. Acredito que a mídia, seja informativa ou de entretenimento, tem um papel fundamental nesse processo. E muitas vezes peca ao falar do assunto, pois ainda vem cheia de preconceito. Quando eu comecei a pensar na história, isso me preocupou muito: como fazer para não reproduzir esses aspectos estereotipados da sociedade e da mídia? Como mostrar que a lésbica é mulher, acima de qualquer coisa, que vive e ama como qualquer outra, que é linda, como toda mulher?
Visibilidade lésbicaFiz minha monografia da faculdade de jornalismo sobre a homossexualidade feminina nas séries de TV. E quando fui pesquisar a bibliografia, descobri que existem muito poucos livros publicados sobre o assunto. A maioria dos livros sobre estudos da homossexualidade que encontrei, focava muito nos homens. Há muito preconceito dentro do próprio meio. Preconceito contra nós mesmas, as vezes.
Poucas mulheres se mostram. Poucas vão lá e colocam as caras nos eventos gays que acontecem por aí. Aqui no Rio, dentro do grupo Arco Íris, tem o movimento Laços e Acasos, que é ótimo! Tem também o Movimento D’Ellas que realiza o Tem mulheres lésbicas, bissexuais e transexuais na parada!, uma frente que abre as paradas LGBT. Meu filme tenta fazer parte de movimentos como esses: os que mostram a mulher como ela é e ponto. Não acho que estou certa em todos os pontos de vista que apresento, minha primeira história não tem um final muito feliz. Mas sei que quando todas estiverem prontas, as pessoas vão entender!
Lésbicas na TVRecentemente, a HBO produziu uma série brasileira chamada Alice, protagonizada por uma grande atriz juizforana chamada Andréia Horta. A série, pra mim, fez o retrato mais fiel de um casal lésbico já construído na TV brasileira. Regina Braga e Denise Weinberg vivem Luli e Dora, que descobrem o amor entre elas já pelos 40 anos. É linda a abordagem, o roteiro, tudo. A série termina com uma das cenas mais perfeitas que já vi e é exatamente o casamento delas. Já a Força Tarefa, da Globo, tenta, mas, na minha opinião, não aborda de forma muito positiva. O caso mais recente, da novela A Favorita. Apesar de todo mundo torcer para Catarina (Lilia Cabral) e para Stela (Paula Burlamaqui) ficarem juntas, o final delas foi tão timidamente mostrado, nada explícito. O problema é que ainda é muito difícil enfrentar a igreja, o poder comercial e tantos outros órgãos que barram situações mais abertas sobre a homossexualidade feminina, principalmente nas grandes redes. Acredito que a TV brasileira por assinatura consegue cumprir esse papel, a aberta não.
O papel da mídiaA mídia tem um papel mais importante do que todos nós imaginamos. Quando a Ellen DeGeneres enfrentou, em 1997, a Disney e saiu do armário publicamente em seu seriado, demos um passo fundamental na luta contra o preconceito. Hoje em dia, ela é uma das mulheres mais poderosas dos Estados Unidos, fala abertamente de seu casamento com Portia de Rossi, e leva, através de seu programa de entrevistas, muita gente a aceitar e entender a homossexualidade. Ela é só um exemplo, porque todas as vezes que alguém se assume publicamente de forma positiva, ganhamos ponto. É muito bom.
Participação da imprensaAgora, sinceramente, os jornalistas têm que ter um cuidado enorme com o que falam, escrevem, publicam. Tem uma máxima que diz: “saiu em 3 jornais diferentes, é verdade!”. E o pior é que acontece, vai contestar depois. Quando a mídia apresenta uma visão negativa, que corrobora com o preconceito latente da sociedade paternalista e machista que vivemos, perdemos força, ficamos mais fracos. Acredito plenamente na força que a verdade tem. Mas essa verdade tem que ser a verdadeira! Não a que editorias escolhem, veículos apresentam somente para ganhar ibope, propagandas abusam para fazer rir.
Uma palavra mal escrita cria desentendimentos para o resto da vida. E, da mesma forma, uma palavra bem colocada, pode salvar o mundo. Tenho certeza que, se a mídia estivesse empenhada em nos ajudar a conseguir a aprovação pelo Senado Federal do PLC 122/06, pela criminalização da homofobia, já teríamos conseguido. E a morte do rapaz na última parada LGBT de São Paulo talvez pudesse ter sido evitada. Aproveite, entre no site www.naohomofobia.com.br e vote!
(assista aO Móbile online)