Na buatchy, a gente caça companhia, afeto, amores ou animais?

10/07/2009

Durante uma entrevista ao jornal So Foot, em julho de 2006, o sargento Graham Naughton, especialista em hooliganismo na Footbal Intelligence Unit, admitiu que “quando se tratam os torcedores como animais, eles acabam por se comportar como animais”. Hoje, vou tentar fazer uma analogia entre essa frase e a dinâmica da conquista entre homossexuais, a famosa “paquera na buatchy”, dizendo: quando se tratam os gays como animais, eles acabam se comportando assim. Nada de falar que agem como bichas, ok?

A “paquera na buatchy” pode ser interpretada como uma caça simbólica que substitui a caça de sobrevivência dos primitivos, a caça esportiva dos séculos seguintes e a caça sangrenta das arenas antigas. Há vários elementos comuns entre essas práticas e a pegação na “buatchy”: a estratégia inicial, a tática durante a atividade, a cooperação necessária, o perigo que correm os participantes, a perseguição ao animal (a meta), a concentração e a energia requeridas, a habilidade específica e a imaginação rápida, o sangue-frio, a visão e a mira, a motivação e a bravura.

A troca de olhares que antecipa esse conjunto de estratagemas e culminam no jogo da conquista evidenciam a guerra, onde atacam adversários e suas presas. Trata-se de uma caçada recíproca, na qual cada indivíduo ou bando, ao mesmo tempo, tenta impedir a morte simbólica de sua presa, conquistando-a. Os espectadores (amigos da presa e do caçador) sentem-se coparticipantes dessa atmosfera tribal, realizando o esforço físico de estimular, sob sol, chuva, ou na fumaça causada pelo gelo seco, a cerimônia da conquista.

É possível perceber, com isso, que existe um universo de mitos e ritos que tangenciam a conquista. Vale a pena lembrar as explicações de um dos grandes nomes da antropologia estrutural, o francês Lévi-Strauss, cuja primeira grande contribuição para as ciências sociais é a análise dos mitos. Um mito não existe isoladamente, ele está relacionado a outros. A sua interpretação somente se torna possível quando é construída a partir de grupos de mitos que lhes são próximos. Os fatos devem ser analisados não como uma série de acontecimentos unidos. São elementos repetitivos, recorrentes, que permitem demonstrar que o “sistema” comporta relações lógicas e interdependentes.

As sociedades ocidentais contemporâneas perderam o efeito tranquilizante do grupo, dos ritos sociais, do mito. Para o ser humano, o “estar junto afetivo” é sensação sempre reconfortante, e negada quando ele está inserido em conjuntos demasiado amplos e abstratos, como megalópoles, empresas multinacionais, enormes universidades ou uma boate com capacidade de receber mais de 3 mil pessoas, como acontece aqui em São Paulo. Daí ser cada vez maior o número de pessoas que recorrem a medicamentos ansiolíticos. Porque assim: se eu não consigo nem paquerar direito, que consiga ao menos fugir da depressão. Calminho, calminho.

A Capa retrata a cultura queer com ensaio fotográfico com Daniel Peixoto

08/07/2009

Neste final de semana, o mercado editorial recebe o número 24 da revista A Capa. O tema central da publicação é a cultura queer, bastante complexa pela sua amplitude, mas presente no cotidiano de todos. Pela primeira vez, o ensaio da revista é artístico. O cantor cearense Daniel Peixoto estampa o ensaio principal, por ser um personagem da noite gay rico de elementos que compõe a estética queer e propõe um olhar artístico aos leitores, habituados aos tradicionais ensaios com homens de peitoral de fora.

O ensaio foi clicado pelo fotógrafo Fabio Motta. A maquiagem e o cabelo de Daniel Peixoto são assinadas por Erick Eduardo, com produção Bruno Niz. Daniel veste Walério Araújo. Em entrevista à revista, o cantor fala ainda sobre paternidade, drogas, carreira e seu próximo álbum, que não será lançado com o nome de Montage.

A publicação dedica quatro páginas à comovente história de Érika, transexual de 15 anos que foi recusada por seis escolas, chegou a estudar em colégio para portadores de deficiência e agora usa seu nome social na rede pública de São Paulo.

Outra seção da revista dedica-se à contribuição que Tom of Finland deu para a formatação da estética homossexual que está presente hoje no imaginário de todos através da sua arte, baseada em seus desejos. Outra novidade é a estreia de Régis Olivar, editor de arte de A Capa, com sua coluna “Achados”. O novo colunista trará dicas para ler, ver, ouvir e comprar.

Em sua última coluna, Sérgio Ripardo faz uma homenagem à fotógrafa Daia Oliver ao publicar cinco cliques que reproduzem a cultura da noite gay. Gilles Wullus, editor da revista francesa Têtu, esteve no Brasil durante a Parada Gay e conversou com A Capa sobre o impacto da crise financeira no mercado editorial segmentado, turismo gay, publicidade e o futuro da mídia gay. A revista também mostra gogo boys e heterossexuais convictos contando como é trabalhar em clube gay (o assedio do público e contam que são taxados de garotos de programa).

Veja fotos exclusivas do ensaio gentilmente cedidas pela revista:





Premiadíssimo, Café com Leite está no Bota

04/07/2009

“É difícil a gente se acostumar quando as coisas mudam”. A frase de um dos personagens de Café com Leite define bem o sentimento que predomina na história contada nessa produção de 2007. O curta (18 minutos de duração), que participou de vários festivais de cinema nacionais e internacionais, acumula entre seus prêmios o Urso de Cristal no Festival de Berlim 2008, Melhor Filme no Festival de Cinema de Campina Grande 2008, Melhor Curta - Júri Popular no LesGaiCineMad - Espanha 2008, Melhor Curta - Júri Popular no Torino Film Festival 2008, Melhor direção no Curta Santos 2008, entre outros.

Com roteiro e direção de Daniel Ribeiro, direção de arte de Mônica Palazzo, o filme conta a história dos namorados Danilo (Daniel Tavares) e Marcos (Diego Torraca), e de Lucas (Eduardo Melo), irmão de Danilo. Entre videogames e copos de leite, dor e decepção, os três precisam aprender a viver juntos.

Procuradora propõe ação para reconhecer união entre pessoas do mesmo sexo

03/07/2009

“O indivíduo heterossexual tem plena condição de formar a sua família, seguindo as suas inclinações afetivas e sexuais. Pode não apenas se casar, como também constituir união estávsob a proteção do Estado. Porém, ao homossexual, a mesma possibilidade é denegada, sem qualquer justificativa aceitável”. A conclusão é da procuradora-geral da República, Deborah Duprat, que propôs ontem (dia 2), ao Supremo Tribunal Federal (STF) arguição de descumprimento de preceito fundamental (ADPF 178), com pedido de liminar e de audiência pública, para reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo.

A procuradora-geral quer que aos parceiros homossexuais sejam dados os mesmos direitos e deveres dos companheiros em uniões estáveis. Deborah Duprat entende que ao negar o reconhecimento deste tipo de união, o Estado alimenta e legitima uma cultura homofóbica.

A ADPF foi proposta com base em representação do Grupo de Trabalho de Direitos Sexuais e Reprodutivos da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão. A tese sustentada é a de que se deve extrair diretamente da Constituição de 88 – nos princípios da dignidade da pessoa humana, da igualdade, da vedação das discriminações odiosas, da liberdade e da proteção à segurança jurídica – a obrigatoriedade do reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar. E, diante da inexistência de legislação infraconstitucional regulamentadora, devem ser aplicadas analogicamente ao caso as normas que tratam da união estável entre homem e mulher.

Para Deborah Duprat, o reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo independe de mediação legislativa, pois é possível aplicar imediatamente os princípios constitucionais. “Não subsiste qualquer argumento razoável para negar aos homossexuais o direito ao pleno reconhecimento das relações afetivas estáveis que mantêm, com todas as consequências jurídicas disso decorrentes”.

Quanto à redação do parágrafo 3º, do artigo 226 da Constituição - “é reconhecida a união estável entre homem e mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar a -sua conversão em casamento” - a procuradora-geral diz que isso não impede o reconhecimento da união entre homossexuais, uma vez que a Carta Maior não é um amontoado de normas isoladas. “Trata-se de um sistema aberto de princípios e regras, em que cada um dos elementos deve ser compreendido à luz dos demais”. E é na parte dos princípios fundamentais que se encontram as normas que permitem o reconhecimento.

Na argüição, a prcuradora-geral pede medida liminar para evitar danos patrimoniais, como benefícios previdenciários e direito a alimentos, e extrapatrimoniais, como abalos à auto-estima e o estímulo ao preconceito e à homofobia. Devido à relevância do tema, foi pedida na ação, a convocação de audiência pública no STF para discussão do reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo.

Tenha orgulho de ser homossexual: hoje, amanhã e sempre

28/06/2009

Hoje é 28 de junho de 2009, dia em que toda a gama de entidades que lutam pelos direitos do LGBTs comemora o Dia Internacional do Orgulho LGBT. Você imagina por que essa data tenha sido escolhida para ilustrar a nossa causa? Exatamente porque no mesmo dia, só que em 1969, os homossexuais davam um importante passo rumo à tolerância e à aceitação. Nos Estados Unidos, em Nova York, frequentadores do bar Stonewall enfrentaram policiais – cansados de serem chantageados e espancados.

Naquele dia, lá nos idos de 1969, uma porção de gays lutou, bateu, apanhou (como Luiz Mott citou em seu artigo, até incendiaram um camburão da polícia). E qual foi o resultado disso tudo: o início de um novo tempo, de redução paulatina da repressão policial. Eu já havia sido alertado por Ricardo Rocha Aguieiras para esse dado, mas lendo uma reportagem do site A Capa, deparei-me com uma informação valiosa. O levante de Stonewall aconteceu no mesmo dia do funeral da atriz e cantora Judy Garland, célebre por dar vida ao papel de Dorothy, do filme “O Mágico de Oz”, e imortalizar a música “Over the rainbow”, também do filme. Aqui entre nós, além do arco-íris, que grande referência foi criada aí.

Segundo o texto, de Victor Barroco, a atriz era então um dos principais ícones para cidadãos homossexuais daquele momento. E foi justamente embalados por essa tristeza, como sugere o veterano de Stonewall Williamson Henderson, que eles deram os primeiros passos rumo à imensa luta, que continua até hoje. Aos poucos, as paradas foram surgindo e criando mais raízes. Depois daquele 1969, os militantes se apropriaram da data. Embebidos dessa mesma tristeza (não apenas a morte do ícone, como a repressão policial) não dá para não fazer uma ponte até o recente assassinato do cozinheiro Marcelo Barros – cruelmente espancado por um grupo de carecas, na Rua Araújo, após a Parada Gay de São Paulo.

As paradas gays, como a de São Paulo, marcam exatamente a luta por direitos iguais, que começou em 1969. Gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais sonham com uma sociedade mais justa e inclusiva, em que preconceito e homofobia sejam coisas do passado e direitos básicos estejam ao alcance de todos. No entanto, muitos culpam “os outros” pelos problemas, sem enxergar que também fazem parte das soluções.

São pessoas que nunca se interessaram pelo movimento LGBT, não pretendem se aproximar dele, mas têm boas intenções e até gostariam de fazer algo – só não sabem por onde começar. Por isso mesmo, um grupo de seis amigos (dos quais eu faço parte junto com BHY, Cris, Daniel, Isa e Thiago), todos blogueiros, reuniu-se para elaborar esta lista de ideias que possam ajudar a causa LGBT. Com base naquilo que conhecemos e vivenciamos, pensamos em sugestões viáveis, realistas, que pudessem sair do papel e ser incorporadas ao cotidiano. Quero deixar registrado meus parabéns ao Thi, por sua capacidade de aglutinar e organizar todo o trabalho.

Esta é uma iniciativa independente, desvinculada de interesses de grupos ou partidos, e que não concorre ou compete com o trabalho da militância organizada, nem esgota os temas que são tratados. Com elas, queremos apontar um caminho para que mais pessoas, sozinhas, tomem atitudes úteis e construtivas, que gerem efeitos sociais positivos, a curto e longo prazo. Se possível, que estimulem o surgimento de novas ideias e, principalmente, de protagonismo da população LGBT.

O texto não foi confeccionado para impor opiniões ou ditar regras. O intuito é dar uma contribuição para o fim da inércia coletiva. Nossa intenção é que mais e mais pessoas, nos mais diversos lugares, percebam que podem fazer a diferença, que isso está ao alcance delas, e, assim, sintam-se encorajadas. Eu, pessoalmente, convido você a ler e refletir sobre estas pequenas atitudes individuais, mas que visam a trazer benefícios para todos nós. Não precisa seguir ou concordar com todas elas. A ideia é que cada um absorva aquilo que estiver mais próximo de sua realidade.

Leia, pense e veja como você pode fazer a sua parte (clique na figura abaixo e divirta-se).


*Lendo o post do Isa, vi essa sensacional imagem sobre o nosso Stonewall (manifestação contra o delegado Richetti, no Centro de São Paulo, em 13 de junho de 1980), que foi tirada pelo Sérgio Carrara, hoje professor do IMS/UERJ, e pedi para usar. É a úlima fotografia em PB do post. Se você quiser/puder divulgar a cartilha em suas páginas pessoais, os banners em três tamanhos estão aqui.

Revista cita que maioria dos gays dos EUA tem espiritualidade

27/06/2009

Deu na revista Advocate.com (em inglês). Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos aponta que seis entre dez gays e lésbicas apontam a fé como algo importante para a vida deles. Os dados foram coletados por um grupo de pesquisa cristão. No mesmo caminho, 72% dos heterossexuais afirmaram o mesmo sobre a fé ser parte fundamental de suas vidas.

"Pessoas que apóiam a ideia de que gays adultos não possuem Deus, são anti-cristãos, não estão trabalhando com fatos", afirma George Barna, do Barna Group, que conduziu o estudo. "A maioria substancial dos gays entrevistados cita a sua fé como ponto central em suas vidas, consideram-se cristãos, e buscam ter algum tipo de comprometimento pessoal com Jesus Cristo em suas escolhas de vida", diz.

Os autores do estudo escreveram que as respostas encontradas foram "surpreendentes".Segundo Barna, "na esteira dessas controvérsias e as atenções destinadas a gays, os americanos têm desenvolvido inúmeras suposições sobre a vida da população homossexual." No estudo, realizado entre janeiro de 2007 e novembro de 2008, por entrevistas telefônicas, os pesquisadores perguntaram a 9.232 pessoas sobre a orientação sexual delas.

Críticas: Adorei (rs) o jeito como a revista falou da coisa. "Maioria dos gays tem espiritualidade". Aham,Cláudia, senta lá. No meio do texto cita que o estudo foi feito a pedido de um grupo cristão. E só no fim diz que foram feitas 9.232 ligações aleatórias. Desse total, quanto é gay? Ninguém sabe, ninguém viu. E onde foram essas ligações? Ninguém sabe, ninguém viu. Metodologia científica? Ninguém sabe, ninguém viu também.

100 mil visitas e mais uma boa notícia

25/06/2009

Hoje, o Bota Dentro atingiu a marca de 100 mil visitas. Desculpe a franqueza: estou surpreso. Caraca. Em pouco mais de um ano, alcançar esse número não é fácil. E por uma série de motivos, eu, a Nina, o Diego e todos os nossos colaboradores eventuais (tem texto do Wagner na gaveta e eu não consigo postar) queremos partilhar com os nossos leitores-amigos a alegria de alcançar essa marca. É apenas uma marca, um símbolo. Da mesma maneira, esperamos que tenha sido um símbolo importante a prisão, na madrugada de hoje, de duas pessoas suspeitas de enviar fotografias de agressão para intimidar homossexuais que fazem campanha contra a homofobia. Dois homens, acusados de integrar movimentos neonazistas, foram presos pela Decradi (Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância). Este blog noticiou a prática deles, que intimidaram pessoas que participariam do protesto contra a morte de Marcelo Barros e os outros atos de violência homofóbica durante e após a Parada Gay de SP. Há braços dispostos a trabalhar pela nossa causa. Acreditemos!

“Para mim, o amor é um móbile, um movimento constante”

21/06/2009

Autora e diretora do curta-metragem 'O Móbile: Admiração' disponibiliza filme para download e fala da importância em comunicar sobre a homossexualidade

Um duelo entre o amor e a arte. Assim é a paixão vivida pela artista plástica Bárbara Oliveira (Stefane Ribeiro) e pela atriz Nina Maya (Nadja Dulci), contada em 'O Móbile: Admiração', curta-metragem com roteiro e direção de Lilian Werneck, lançado neste mês. Com 25 minutos de duração, o filme (apoiado pela Lei de Incentivo à Cultura Murilo Mendes, de Juiz de Fora/MG) é o primeiro de uma série de cinco histórias. Além de Admiração, os roteiros de Diálogo, Confiança, Apoio e Perdão trazem como tema a homossexualidade feminina.

Na entrevista que Lilian Werneck concedeu ao Bota Dentro, a autora fala do processo de criação do filme e de como produções artísticas podem ajudar a dar visibilidade para o tema. Lilian, que também é jornalista, defende tanto a ideia de informar sobre a homossexualidade que já disponibilizou seu filme na internet para download (aqui), uma iniciativa extremamente generosa, já que o curta acabou de ser lançado.

Aliás, com O Móbile Lilian deixa claro que o caminho é mesmo tornar comum. Tanto que o DVD do filme (que pode ser comprado pelo email omobileadmiracao@gmail.com, por R$ 15) tem a tarja de Creative Commons, que permite copiar, compartilhar e exibir o filme a vontade.
Depois do lançamento em Juiz de Fora, agora Lilian negocia a exibição do filme em outras cidades e faz planos para os próximos roteiros que já estão escritos (ela já antecipou aqui como são as histórias, com dez personagens centrais), mas ainda precisam de captação de verba para serem produzidos.
A seguir os principais trechos da entrevista.

Inspiração para o filme
Claro que em cada uma das histórias há um pouco de mim, na verdade, cada uma das personagens sou eu. Meio absurdo falar isso, mas pense numa geminiana que você vai entender. Pense também numa mulher de 31 anos que aos 16 assumiu sua homossexualidade para os pais e para o mundo. Pense em alguém que nunca deixou de viver seus sonhos e, muitas vezes, sofreu por isso. Mas pense também em uma menina que nunca se arrependeu de nada. Penso nisso e lembro-me de mim, lembro de muitas amigas, lembro de várias pessoas que passam por isso todos os dias. E, sim, cada uma das histórias retrata um pedaço da minha vida. Minhas histórias não são únicas, não são as primeiras, não serão as últimas. Mas tenho certeza que muita gente já compartilhou das mesmas experiências que eu. Por isso é muito importante pra mim descrevê-las, mesmo que com outras “roupas” em O Móbile.

Abordagem do tema
A dificuldade maior foi contar para minha mãe que ia fazer não um, mas vários filmes sobre o amor entre mulheres. Foi uma luta interna. A gente sempre tem uma trava quando vai falar abertamente sobre isso. Lembro-me, estávamos no carro, voltando pra casa, e eu simplesmente falei. “Mãe, não quero que você fique preocupada, mas escrevi alguns roteiros sobre a homossexualidade feminina e vou transformá-los em filmes”. Ela simplesmente olhou para o lado e riu. Minha mãe é a mulher mais maravilhosa que conheço e, como tenho uma postura muito positiva sobre a homossexualidade, nunca me viu como algo “anormal”, ou como “fase que passa”. Quando ela viu o filme pela primeira vez, teve exatamente a reação que eu espero que todas as pessoas tenham. Disse “você conseguiu falar de um tema tabu com tanta sensibilidade, com tanta delicadeza, que é lindo ver a história das duas, é emocionante”.

Homofobia e medo
Falar sobre um universo tão meu e tão querido por mim me tornou mais forte. Com o filme, perdi o medo de falar sobre isso, me envolvi mais no movimento, conheci de perto os medos das mulheres em se assumir, permiti que outras mulheres se aproximassem para falar também de seus problemas e preocupações, abri mais espaço na minha vida para o assunto. E assim pretendo continuar seguindo, trabalhando cada vez mais com o tema. Porque precisamos que as pessoas falem sobre isso para que essa coisa inexplicável chamada homofobia acabe de vez. Quanto mais se fala, menos medo existe.

Admiração, diálogo, confiança, apoio e perdão
As histórias em si não têm nenhuma relação uma com a outra, a não ser o objeto móbile que cada personagem tem. Em Admiração, Nina e Bárbara são artistas e a arte fala mais alto que o amor. Já na segunda história, Diálogo, Ísis é uma mulher casada, mais velha, desiludida, que se apaixona novamente pela vida e por ela mesma quando conhece pela internet Stela, uma jovem arquiteta lésbica apaixonante. Confiança traz a história de Clara e Olívia, duas adolescentes com necessidades especiais. Clara é surda, Olívia é cega e elas se apaixonam profundamente através do toque. Já Apoio traz duas senhoras que estão juntas há 51 anos, Anita e Sofia, uma escritora e uma jardineira. É uma história de amor e morte, muito bonita, mas muito triste. A última história, Perdão, mostra a cantora Malu Cordeiro e sua namorada, a fotógrafa Renata, vivendo um conflito imenso quando Malu engravida do baixista da sua banda. Como amar sem perdoar? Essas histórias são retratos de um móbile em movimento. Para mim, o amor é um móbile, um movimento constante, cheio de tramas diferentes e que a cada momento adquire uma nova forma.

Comunicar, tornar comum
Meu objetivo maior com esse e com os outros filmes é comunicar, ou seja, tornar comum. Sempre acreditei que quanto mais se fala no assunto, de forma ética, melhor as pessoas encaram o assunto. O preconceito existe muitas vezes por medo. Medo do desconhecido. Quando nos deparamos com uma situação de frente, enfrentamos nossos medos. É isso que quero, mostrar, exibir, falar do assunto. Com o filme tem acontecido isso. As pessoas “esquecem” que são duas lésbicas e se prendem na história delas, nas dificuldades amorosas, acham uma pena a forma como termina, se comovem! Mesmo quem a princípio não aceita. O curta metragem é uma ótima ferramenta nesse sentido porque é exibido em festivais, com público aberto. Ou seja, todos têm oportunidade de ver e questionar. E se questionar: por que é tão difícil aceitar que homens amam homens e mulheres amam mulheres?

Estereótipos da sociedade
Uma das maiores lutas do movimento lésbico é pela visibilidade. Isso porque os homens gays sempre se mostraram mais, de várias formas, e no contexto da sociedade paternalista que vivemos, a mulher sofreu muito para conseguir seu lugar. Claro que hoje em dia as coisas são muito diferentes, os vários movimentos sociais pelo respeito às mulheres fizeram grandes avanços e a mulher já tem um lugar mais claro na sociedade. Mas ainda temos muito a alcançar. Acredito que a mídia, seja informativa ou de entretenimento, tem um papel fundamental nesse processo. E muitas vezes peca ao falar do assunto, pois ainda vem cheia de preconceito. Quando eu comecei a pensar na história, isso me preocupou muito: como fazer para não reproduzir esses aspectos estereotipados da sociedade e da mídia? Como mostrar que a lésbica é mulher, acima de qualquer coisa, que vive e ama como qualquer outra, que é linda, como toda mulher?

Visibilidade lésbica
Fiz minha monografia da faculdade de jornalismo sobre a homossexualidade feminina nas séries de TV. E quando fui pesquisar a bibliografia, descobri que existem muito poucos livros publicados sobre o assunto. A maioria dos livros sobre estudos da homossexualidade que encontrei, focava muito nos homens. Há muito preconceito dentro do próprio meio. Preconceito contra nós mesmas, as vezes.
Poucas mulheres se mostram. Poucas vão lá e colocam as caras nos eventos gays que acontecem por aí. Aqui no Rio, dentro do grupo Arco Íris, tem o movimento Laços e Acasos, que é ótimo! Tem também o Movimento D’Ellas que realiza o Tem mulheres lésbicas, bissexuais e transexuais na parada!, uma frente que abre as paradas LGBT. Meu filme tenta fazer parte de movimentos como esses: os que mostram a mulher como ela é e ponto. Não acho que estou certa em todos os pontos de vista que apresento, minha primeira história não tem um final muito feliz. Mas sei que quando todas estiverem prontas, as pessoas vão entender!

Lésbicas na TV
Recentemente, a HBO produziu uma série brasileira chamada Alice, protagonizada por uma grande atriz juizforana chamada Andréia Horta. A série, pra mim, fez o retrato mais fiel de um casal lésbico já construído na TV brasileira. Regina Braga e Denise Weinberg vivem Luli e Dora, que descobrem o amor entre elas já pelos 40 anos. É linda a abordagem, o roteiro, tudo. A série termina com uma das cenas mais perfeitas que já vi e é exatamente o casamento delas. Já a Força Tarefa, da Globo, tenta, mas, na minha opinião, não aborda de forma muito positiva. O caso mais recente, da novela A Favorita. Apesar de todo mundo torcer para Catarina (Lilia Cabral) e para Stela (Paula Burlamaqui) ficarem juntas, o final delas foi tão timidamente mostrado, nada explícito. O problema é que ainda é muito difícil enfrentar a igreja, o poder comercial e tantos outros órgãos que barram situações mais abertas sobre a homossexualidade feminina, principalmente nas grandes redes. Acredito que a TV brasileira por assinatura consegue cumprir esse papel, a aberta não.

O papel da mídia
A mídia tem um papel mais importante do que todos nós imaginamos. Quando a Ellen DeGeneres enfrentou, em 1997, a Disney e saiu do armário publicamente em seu seriado, demos um passo fundamental na luta contra o preconceito. Hoje em dia, ela é uma das mulheres mais poderosas dos Estados Unidos, fala abertamente de seu casamento com Portia de Rossi, e leva, através de seu programa de entrevistas, muita gente a aceitar e entender a homossexualidade. Ela é só um exemplo, porque todas as vezes que alguém se assume publicamente de forma positiva, ganhamos ponto. É muito bom.

Participação da imprensa
Agora, sinceramente, os jornalistas têm que ter um cuidado enorme com o que falam, escrevem, publicam. Tem uma máxima que diz: “saiu em 3 jornais diferentes, é verdade!”. E o pior é que acontece, vai contestar depois. Quando a mídia apresenta uma visão negativa, que corrobora com o preconceito latente da sociedade paternalista e machista que vivemos, perdemos força, ficamos mais fracos. Acredito plenamente na força que a verdade tem. Mas essa verdade tem que ser a verdadeira! Não a que editorias escolhem, veículos apresentam somente para ganhar ibope, propagandas abusam para fazer rir.
Uma palavra mal escrita cria desentendimentos para o resto da vida. E, da mesma forma, uma palavra bem colocada, pode salvar o mundo. Tenho certeza que, se a mídia estivesse empenhada em nos ajudar a conseguir a aprovação pelo Senado Federal do PLC 122/06, pela criminalização da homofobia, já teríamos conseguido. E a morte do rapaz na última parada LGBT de São Paulo talvez pudesse ter sido evitada. Aproveite, entre no site www.naohomofobia.com.br e vote!

(assista aO Móbile online)



*Fotos Nina Mello

Neonazi usam foto de agressão para ameaçar gays que irão a protesto

18/06/2009

Donos de perfis no site de relacionamentos Orkut, que defendem entre outras coisas a supremacia branca e o ódio a homossexuais, iniciaram uma campanha de amedrontamento de homossexuais e simpatizantes que pretendem participar de uma manifestação da APOGLBT (Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo) contra as agressões praticadas durante e após a Parada Gay do último domingo. O ato ganhou destaque após a morte do cozinheiro Marcelo Barros, de 35 anos, que segundo testemunhas foi espancado nas imediações da Rua Araújo, no Centro. Aos menos 53 pessoas ficaram feridas.

Pessoas que fazem parte da rede de relacionamentos e que estavam fazendo campanha em prol da manifestação, marcada para as 19 horas do sábado, na Avenida Doutor Vieira de Carvalho (local onde uma bomba caseira explodiu e feriu 23 pessoas), receberam uma imagem em que dois supostos agressores aparecem na frente de outra pessoa. A identidade das pessoas que receberam essas mensagens está sendo preservada, pois elas temem represália. “Como minha foto está em vários lugares, e temo pela minha vida, e considerando que a policia pouco protege, vou evitar de ir ao protesto”, diz um dos ameaçados.

A foto, que foi tirada no escuro, mostra uma terceira pessoa, estirada no chão, aparentemente vítima de agressores. Os indivíduos que estão em pé são brancos e um deles usa boina e coturnos – acessórios utilizados por adeptos do movimento neonazista. Não é possível determinar o local exato em que a imagem foi feita, mas é possível ver os cones da Prefeitura que foram utilizados para isolar as imediações da Avenida Paulista e da Rua da Consolação, por onde os trios que compuseram a Parada transitaram.

O presidente da APOGLBT, Alexandre Santos, afirmou que está enviando a imagem para a Decradi (Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância), para que as investigações sobre a autenticidade do material sejam feitas. “Estamos encaminhando o material para a delegacia e estamos esperançosos que isso ajude na identificação dos agressores. Precisamos saber se aquela pessoa no chão, de fato, foi agredida. De repente, ela é alguma das vítimas que estão ainda internadas”, afirmou o militante.

Segundo Alexandre, a prática de tentar amedrontar os homossexuais em manifestações desse tipo é comum. “Eles sempre fazem esse tipo de ameaça. Aproveitam-se do anonimato da Internet para fazer barbaridades. A gente conta com o apoio da Polícia Militar. O coronel Chaves, que é o responsável pelo perímetro em que ocorrerão as manifestações, também receberá uma cópia dessa imagem, para que ela seja divulgada entre os homens da PM e isso possa impedir algum ato de violência por intolerância a gays”, diz Alexandre.

O militante diz que é importante a participação da comunidade LGBT nas manifestações. “Conclamamos, junto a outros grupos LGBT, entidades da sociedade civil da cidade e do Estado de São Paulo, ativistas independentes, a comunidade de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais e a população solidária a comparecer à manifestação ‘Homofobia, Basta! Justiça, já!’, que ocorrerá no próximo sábado, na Avenida Doutor Vieira de Carvalho, a partir das 19 horas”, convocou.

Homossexual espancado por carecas após Parada Gay de SP morre

17/06/2009

Quase dez anos depois do emblemático caso de assassinato motivado por homofobia em São Paulo (do adestrador Edson Néris da Silva), a Capital registra mais uma morte gerada pela intolerância a homossexuais. A Santa Casa de Misericórdia de São Paulo confirmou, no início da noite desta quarta-feira, a morte de Marcelo Campos Barros, de 35 anos. O rapaz, que é cozinheiro, teve morte cerebral motivada por traumatismo craniano.

Testemunhas afirmam que ele foi espancado por um grupo de carecas, no domingo à tarde, na Rua Araújo, no Centro. A agressão aconteceu nas imediações da dispersão da 13ª Parada do Orgulho Gay de São Paulo, no domingo. O caso foi registrado no 4º Distrito Policial (Consolação), mas deverá ser apurado pela Decradi (Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância). Poucas são as informações a respeito da morte do rapaz. Segundo a coordenadora da Diversidade Sexual da Capital, Irina Bacci, que teve contato com amigas dele, Barros não compareceu à Parada.

As únicas informações que o CRD conseguiu reunir a respeito do caso dão conta de que ele havia saído da Vila Madalena, na Zona Oeste, para se encontrar com um amigo, na região da Rua Araújo. Nesse ínterim, ele teria encontrado um grupo de carecas, que iniciou a agressão. “No sábado, ele compareceu a um churrasco e comentou com os amigos que não iria à Parada, por causa da violência. Mesmo assim foi vítima da homofobia. É um caso muito triste para a cidade”, relata Irina.

O rapaz fazia parte da escola de samba Pérola Negra. Nenhuma manifestação está planejada para o velório dele, pois sua família é Testemunha de Jeová. "As amigas dele disseram que ele era muito querido na comunidade dele. Eles não pretendem deixar isso quieto", disse Irina. Outra informação coletada com as amigas da vítima dá conta de que quando o rapaz foi socorrido, apenas seu celular havia desaparecido. Hoje, as garotas tentaram falar no número e uma pessoa teria atendido à ligação. Durante a conversa com elas, o rapaz teria dito que comprou o chip na feira do rolo que acontece nas imediações do Anhangabaú – de três rapazes fortes, brancos e carecas.

Manifestações – O anúncio da morte do rapaz está fortalecendo a realização de uma manifestação de associações de defesa dos direitos LGBT. No sábado, dia 20, o Corsa e o Fórum Paulista LGBT deverão se unir à APOGLBT, em um protesto que deverá acontecer na Avenida Doutor Vieira de Carvalho (a partir das 19h). O ato deverá acontecer no local onde, no domingo, explodiu uma bomba caseira que feriu mais de 30 pessoas. A polícia está investigando as circunstâncias da explosão, na tentativa de identificar se o ato foi um atentado homofóbico. A Decradi ainda não se manifestou a respeito do ocorrido.

Segundo o comunicado oficial da APOGLBT (Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo), a edição deste ano reuniu 3,1 milhões de pessoas. Neste ano, uma série de agressões ganhou destaque. Ao todo, 53 pessoas ficaram feridas. O caso que chamou mais atenção foi a explosão da bomba caseira. Há ainda pelo menos outros três casos de pessoas que permanecem internadas em hospitais da Capital, por conta das agressões. Dois na Santa Casa e um no Hospital das Clínicas. Um deles é o adolescente de 17 anos que teve politraumatismo na face. Segundo a Santa Casa, ele não corre risco de morrer. De acordo com boletim de ocorrência registrado no 4º Distrito Policial, M.P.S foi agredido por um grupo quando estava na esquina da Rua Dona Antônia de Queiroz com a Frei Caneca. Testemunhas relataram que o adolescente ficou caído no chão até a polícia chegar.

No início da tarde, a APOGLBT emitiu um comunicado oficial lamentando o ocorrido. O documento diz: “As agressões após a Parada de 2009 mostram claramente o quanto é necessário aprovar uma lei que criminalize esses absurdos. Esses casos ganham destaque no dia da Parada, mas acontecem todo dia, sem que autoridades se pronunciem. Dessa forma, a 13ª. Parada do Orgulho LGBT de São Paulo revelou sua importância como estratégia de pressão por aprovação de direitos de uma população discriminada”.

Memória – Edson Néris da Silva foi assassinado na madrugada de 6 de fevereiro de 2000, quando passeava de mãos dadas com seu companheiro, Dario Pereira Netto, na Praça da República. Eles foram surpreendidos por um grupo pertencente aos Carecas do ABC. Dario conseguiu escapar, mas Edson foi espancado barbaramente a chutes e golpes de soco-inglês. A Polícia chegou a deter 18 suspeitos, duas delas mulheres. No julgamento, alguns receberam penas brandas por somente participar do ataque, outros, condenados até 21 anos de prisão pela acumulação de crime de formação de quadrilha com o de homicídio triplamente qualificado. Graças à progressão das penas, todos já estão em liberdade. Na Parada Gay de 2007, o turista francês Grégor Erwan Landouar também foi assassinado após ir à parada gay. Grégor foi esfaqueado diversas vezes por quatro desconhecidos ao sair do bar Ritz e morreu pouco depois em um hospital da capital paulista. O autor do crime, o punk Genésio Mariuzzi Filho, de 23 anos, apelidado de Antrax, foi detido. O rapaz, da gangue Devastação Punk, confessou ter praticado o crime para descontar a raiva por seu grupo ter perdido uma briga com uma gangue rival. Durante o julgamento, ele afirmou que "deu azar" porque o caso foi amplamente divulgado pela mídia. Ele foi condenado a 27 anos e seis meses de detenção.

Grupos farão manifestação contra violência na Parada Gay de SP

16/06/2009

A Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOGLBT) emitiu uma nota oficial repudiando os casos de violência homofóbica, ocorridos após a 13ª Parada do
Orgulho LGBT de domingo. Também foi divulgado que no sábado, dia 20, o Corsa e o Fórum Paulista LGBT deverão se unir à APOGLBT, em um protesto que deverá acontecer na Avenida Doutor Vieira de Carvalho (a partir das 19h). No local, uma bomba caseira explodiu, ferindo mais de 30 pessoas, após o encerramento da Parada, no domingo. A polícia está investigando as circunstâncias da explosão, na tentativa de identificar se o ato foi um atentado homofóbico. Leia a íntegra da nota:

"*Nota oficial da Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo sobre casos de violência homofóbica pós-Parada*

Considerando as manifestações homofóbicas ocorridas em locais de freqüência de LGBT após a realização da XIII Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, a Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo vem a público manifestar sua indignação e esclarecer que:

1. Como entidade organizadora da Parada, a Associação da Parada trabalha em parceria com a Polícia Civil e Militar para evitar situações de violência e desrespeito à legislação vigente, o que sempre fez da Parada uma atividade pacífica e com baixos índices de ocorrências relativamente às proporções da manifestação;

2. Como entidade ativista pelos direitos LGBT, a Associação da Parada considera que os atos marcadamente homofóbicos que ocorreram após o evento, como o espancamento na rua Frei Caneca e o arremesso de uma bomba de um condomínio na Avenida Dr. Vieira de Carvalho, são expressões da homofobia a que estão submetidos cotidianamente LGBT na cidade de São Paulo e no Brasil. Pesquisas como a recentemente divulgada pela Fundação Perseu Abramo trazem dados que revelam um país marcadamente homofóbico (na pesquisa divulgada pela FPA, 92% de entrevistados em 150 municípios espalhados pelo país reconheceram que existe preconceito contra LGBT e cerca de 28% reconheceram e declararam seu preconceito);

3. Consideramos, ainda, que os casos ocorridos se revestem de especial gravidade, sobretudo pelo significado que adquirem ao atingir integrantes de uma comunidade altamente estigmatizada e violada em seus direitos no dia em que se manifesta em favor do reconhecimento desses direitos;

4. Assim sendo, reiteramos nosso clamor, expresso também por via de Ofício encaminhado pela Associação da Parada, para que a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo atue com afinco e rigor na apuração dos fatos e na punição dos autores de tais atos de violência;

5. Conclamamos, junto a outros grupos LGBT e entidades da sociedade civil da cidade e do estado de São Paulo, a comunidade de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais e a população solidária a comparecer à manifestação “Homofobia, Basta! Justiça, já!”, que ocorrerá no próximo sábado 20 de junho, na Av. Dr. Vieira de Carvalho, a partir das 19 horas.

Diretoria da Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo"

Os jornais erraram a mão na hora de cobrir a violência na Parada

15/06/2009

Muita gente costuma acusar jornalistas de serem corporativistas. Tal pérola vive na boca e nas linhas de Diogo Mainardi, toda vez que pretende atingir em cheio o ego da categoria. Outros, acusam-nos de mentirosos, inventores e autores de histórias de ficção. Hoje, sinto-me confortável, como jornalista, para criticar a minha profissão. E vai sobrar para alguns colegas de profissão que admiro e outros que são meus amigos (não acho necessário ficar citando o nome de toda a galera e espero que o pessoal não se chateie com as anotações).

A impressão que eu tive, ao ler os jornalões e os jornaizinhos de hoje, é que o pessoal não está conseguindo enxergar a resposta a uma pergunta clássica do Jornalismo: o que é a notícia? Em uma síntese das leituras básicas de quem estuda para ser jornalista, eu posso chegar à conclusão de que notícia é a matéria-prima da nossa atividade, um fato reconhecido como socialmente relevante a ponto de merecer publicação. São fatos políticos, sociais, econômicos, culturais, naturais. Devem afetar indivíduos ou grupos significativos. Costuma-se dizer que notícia é fato quente porque é preciso que tenha acabado de acontecer, ou que ainda não tenha sido divulgada por nenhum veículo.



Feita a iniciação sobre a temática, voltemos ao assunto principal: o enfoque dado pelos jornais paulistanos a respeito da maior Parada do Orgulho LGBT do mundo, a de São Paulo – que aconteceu ontem e, para variar, reuniu mais de 3 milhões de pessoas na Paulista. Vamos às chamadas dos principais jornais de circulação em São Paulo: Parada Gay tem tumulto e brigas (O Estado de S. Paulo), Sem trios de boates, política avança na Parada Gay de SP (Folha de S. Paulo), Confusões marcam a Parada (Jornal da Tarde), Parada Gay de São Paulo teve até príncipe indiano (Diário de S. Paulo), Festa da Parada Gay tem tumulto e violência (Agora SP). Dos jornais gratuitos: Parada Gay: A alegria de sempre (Metrô News), Frio não espanta multidão e Parada Gay lota a Paulista (Destak SP) e Parada Gay reúne 3,5 mi (PubliMetro). Vou me ater aos “abres” das matérias dos dois principais jornais (Folha e Estadão) até para não deixar esse texto gigantesco.

O Estadão, em um texto assinado por Monica Cardoso, Vitor Hugo Brandalise, Rodrigo Brancatelli, Felipe Oda, Luisa Alcalde e Naiana Oscar (quase todos meus amigos, de quando eu trabalhava no estadão.com.br), falou do tumulto e das brigas. Veja o primeiro parágrafo da matéria: “Não adiantou o esquema de "Big Brother" com câmeras nem os 300 seguranças patrimoniais contratados. Mesmo com um número menor de participantes - os organizadores trabalhavam ontem com o número inicial de 3,5 milhões, mas a estatística oficial só será registrada hoje -, a 13ª edição da Parada do Orgulho Gay, na Avenida Paulista, foi marcada ontem por brigas, confusões, empurra-empurra, desmaios e furtos. Apenas em três locais, 120 carteiras foram encontradas.”

No penúltimo parágrafo, a matéria citava: “Na dispersão, alguns participantes continuaram a festa na Avenida Dr. Vieira de Carvalho, em Santa Cecília, por volta das 22h. Incomodado com o barulho, um morador jogou uma bomba caseira sobre o grupo. Segundo a Polícia Militar, 30 pessoas ficaram feridas.” Teria sido interessante citar que a Vieira de Carvalho é um dos principais pontos de convivência de gays de São Paulo, que reúne diversas categorias de homossexuais – dos pobres aos ricos, dos feios aos bonitos, e assim por diante.

Na Folha de S. Paulo, uma reportagem assinada por Daniel Bergamasco abriu o caderno Cotidiano dando conta da “politização” do evento pelo simples fato de as boates gays terem desaparecido da Parada, por causa das taxas que precisam ser pagas (o que já ocorreu no ano passado, diga-se de passagem). Na página 3 do caderno, outro texto, de Fábio Takahasi, informava sobre a existência de brigas, furtos e até uma bomba prejudicando o clima de festa. O texto afirma: “Excesso de álcool, brigas, furtos e até uma bomba caseira contrastaram com a festa vista ontem na Parada Gay. No episódio mais grave, por volta das 22h, o morador de um edifício na avenida Vieira de Carvalho (centro) se irritou com o barulho de pessoas que dispersaram da festa e jogou uma bomba caseira no grupo. Segundo a Polícia Militar, 30 pessoas ficaram levemente feridas pelo artefato. O morador não foi identificado. Outras cenas de violência ocorreram principalmente após a passagem dos trios elétricos. Próximo ao cemitério da Consolação, a Folha presenciou três brigas em apenas dez minutos”.

A minha primeira pergunta: se a Folha presenciou a ocorrência de três brigas em apenas dez minutos, por que não investiu nesse fato? A segunda pergunta: não é possível que todo esse pessoal (que é de primeira linha, gente competente para caramba) que apurou pelo menos 30 feridos (hoje são 59), um cidadão ferido com 20 facadas (segundo reportagem do UOL), outro espancado (até o Datena mostrou as cenas do espancamento de algumas pessoas na região da rua Frei Caneca), não tenha sacado que o mote da cobertura deveria ter sido mais incisivo. Minha gente, na maior Parada Gay do Mundo, 59 pessoas ficaram feridas. A mesma Parada que no ano passado presenciou a morte de um turista francês – assassinado a facadas, lembram? Ninguém lembrou disso nos jornalões. Nem nos jornais gratuitos.

Existem respostas para essas perguntas. Não. Justificativas: ontem estava tudo muito disperso; ontem faltou informação mais detalhada das autoridades e hoje essa informações ficaram mais claras; falta de tempo (afinal as rotativas giram e o jornal tem que sair no horário marcado da gráfica). São todas hipóteses verdadeiras. Só que elas não explicam um fato: por que as matérias preferiram falar que a bomba jogada contra pessoas na Vieira de Carvalho teria sido jogada por causa do barulho da Parada. Tanto que hoje, já há quem diga que a polícia está investigando. Ninguém pode afirmar se isso foi um atentado. Mas, serei mais claro: a polícia está investigando a possibilidade da bomba ser um ato de preconceito, homofobia, atentado mesmo. Será que alguém questionou em quanto tempo é possível preparar um artefato desse? É algo que se faz em 15 minutos, depois de ter ficado puto com um barulho maior na porta de casa? Ou é algo que toma tempo, ou seja, que precisou ser feito com alguma antecedência/planejamento. Isso já denotaria de imediato homofobia. Estou viajando?





Obs.: Para constar, não fui à Parada neste ano. Estava tudo programado. Mas, por volta das 11h do domingo, bateu uma saudades de casa, do pai, da mãe. Aproveitei a carona de um amigo e fui para o Litoral. Almoçamos juntos, rimos juntos. Foi tão bom. Valeu tão a pena!

Pérolas da heteronormatividade

10/06/2009

Não bastassem todas as dificuldades impostas aos homossexuais pela legislação preconceituosa do País, ou pela falta de leis que garantam a essa parcela da população direitos iguais e básicos (como a possibilidade de casar, construir uma família, registrar filhos no nome dos dois parceiros ou parceiras - isso só para citar alguns), ainda tem gente que se dedica a criar outros obstáculos (como se fosse preciso).

O Bota Dentro selecionou algumas propostas e decisões que vão na contramão do lema da Parada do Orgulho LGBT São Paulo deste ano (“Sem homofobia, mais cidadania - pela isonomia dos direitos”). Talvez, devêssemos chamá-las de pérolas dos últimos anos dos poderes Executivo, Legislativo e até do Judiciário, que a rigor tem sido responsável por garantir algumas conquistas dos gays.

Preparados? Então vamos lá.

É proibido morar aqui (2003)
Era uma vez um prefeito na pequena cidade de Bocaiúva do Sul (PR). Em dezembro de 2003, o então chefe do Executivo, Élcio Berti, baixou um decreto proibindo que homossexuais residissem no município. Isso mesmo! Dizia a lei: "Fica vedada a concessão de moradia e a permanência fixa de qualquer elemento ligado a esta classe (homossexuais), que não trará qualquer natureza de benefícios para este município."

Seis meses depois, em junho de 2004, o polêmico prefeito foi ouvido pela Justiça. Berti apresentou três testemunhas para defender a tese de que o decreto não passou de uma piada. A brincadeira, segundo ele teria começado quando um morador pediu um terreno para viver com o companheiro homossexual. Um funcionário da prefeitura teria feito brincadeiras com o prefeito, que teria respondido que era espada e que provaria isto fazendo um decreto proibindo a permanência de homossexuais no município.

Pode? Quando eu penso que já vi tudo...

É proibido beijar em público (2003)
O deputado Elimar Máximo Damasceno (ex-Prona, hoje PR/SP) apresentou proposta que poderia gerar multa ou levar para cadeia pessoas do mesmo sexo que ousassem se beijar na rua. O projeto do parlamentar tornava contravenção penal o “beijo lascivo”, em público, entre pessoas do mesmo sexo. A contravenção penal é um ato ilícito menos importante que o crime.

Segundo o deputado, “constitui fato gravoso que causa constrangimento e desafia a moralidade pública a prática, por parte de pessoas do mesmo sexo, de atos que, mesmo praticados por pessoas de sexos diferentes, não deveriam ser realizados em público".

Pode? Uma proposta como essa merece no mínimo um beijaço num local bem movimentado, como por exemplo, a Estação Sé do Metrô de São Paulo, às 18 horas. Para nossa sorte, o projeto foi arquivado no final de 2004.

Ser ou não ser, eis a questão (2005)
Mais uma dele. Em 2005, o deputado Elimar Máximo Damasceno apresentou projeto de lei a favor do acompanhamento psicológico aos gays que quisessem voltar a ser heterossexuais. (Como assim?)

Damasceno resgatou a Lei 4.119 aprovada em 1962, que previa auxílio psicológico aos homossexuais que quisessem mudar sua orientação sexual e entrou com projeto de lei de mesmo teor na Câmara dos Deputados. Além de absurda, a proposta ainda ia contra a resolução do Conselho Federal de Psicologia, de março de 1999, que proibiu psicólogos de propor tratamento e cura para a homossexualidade.

Para o deputado a pessoa não é homossexual, mas está homossexual. “Considero, ainda, ser direito humano dos que estão (grifo do Bota Dentro) homossexuais, o acesso a esse tipo de auxílio psicológico, caso assim o desejem”.

Detalhe: essa também foi arquivada. Agora, cá para nós: porque será que esse parlamentar se dedica tanto a essa cruzada contra homossexualidade? Deve ter uma explicação. Alguém aí se arrisca a dar um palpite?

Futebol é coisa pra macho (2007)
Em agosto de 2007, Richarlyson, jogador do São Paulo, teve que ouvir que futebol não é coisa para gay. E o pior é que a declaração partiu de um representante do Judiciário. “Futebol é jogo viril, varonil, não homossexual”, afirmou o juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho, da 9ª Vara Criminal de São Paulo, ao negar prosseguimento à queixa-crime do jogador contra o diretor administrativo do Palmeiras, José Cyrillo Júnior.

A polêmica começou quando o jornal Agora São Paulo noticiou que um jogador de futebol estaria negociando com o Fantástico, programa da Globo, para revelar no ar a sua homossexualidade. Depois disso, durante um programa da Record, José Cyrillo Júnior foi questionado se o tal jogador homossexual era do Palmeiras. Cyrillo se saiu com essa: “O Richarlyson quase foi do Palmeiras”. O jogador se sentiu ofendido e foi à Justiça.

Na sentença, o magistrado chegou ao cúmulo de sugerir o que Richarlyson poderia fazer. Se não fosse homossexual, o melhor seria ir ao mesmo programa de televisão dizer que era heterossexual. “Se fosse homossexual, poderia admiti-lo, ou até omiti-lo, ou silenciar a respeito. Nesta hipótese, porém, melhor seria que abandonasse os gramados”.

E o senhor, meretíssimo, já pensou em abandonar o Judiciário?

Rapidinhas de São Paulo

09/06/2009

Inaugurado ambulatório para travestis e transexuais
A cidade de São Paulo ganhou hoje o primeiro ambulatório de saúde do País dedicado exclusivamente a travestis e transexuais (na Rua Santa Cruz, nº 81, na Vila Mariana). Inaugurado pela Secretaria de Estado da Saúde, o novo centro tem capacidade para 100 atendimentos por mês e conta com serviço de urologia, proctologia e endocrinologia (terapia hormonal), avaliação e encaminhamento para implante de próteses de silicone e cirurgia para redesignação sexual. O posto será também um local de treinamento para profissionais de saúde nessa área de atuação.


Documentário de Neide Duarte mostra universo gay
Durante toda a semana do orgulho LGBT, o Cine Bombril, no Conjunto Nacional, em São Paulo, exibirá o vídeo documentário Um lugar para beijar, dirigido pela jornalista da Rede Globo, Neide Duarte. Com 30 minutos de duração, o trabalho mostra o universo gay da cidade de São Paulo.

Gays conquistam espaço no mercado de trabalho

07/06/2009

O Jornal Folha de S. Paulo publicou neste domingo (dia 7), no caderno Dinheiro, matéria mostrando que os homossexuais assumidos estão conquistando espaço no mercado de trabalho. São executivos que enfrentaram o preconceito e com sacrifício acabaram conquistando respeito e promoções.

No texto assinado pelos repórteres Julio Wiziack e Claudia Rolli há cinco personagens (quatro gays e uma lésbica), todos executivos de grandes empresas como a IBM, a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil e a TAM. Conforme a reportagem há até pouco tempo essas companhias só davam espaço para os homossexuais se eles continuassem dentro do armário, mas esse quadro começou a mudar nos últimos cinco anos. Com os avanços do movimento LGBT esse grupo começou a romper o silêncio e a lutar contra a discriminação exigindo direitos iguais no ambiente de trabalho.

A matéria também fala dos programas de diversidade sexual nas grandes empresas que asseguram aos funcionários homossexuais com relações estáveis benefícios corporativos. Pesquisa realizada pela consultoria Mercer com 210 companhias brasileiras de grande e médio portes mostrou que, em 2008, 25% delas permitiam aos seus empregados incluir companheiros nos planos de saúde e odontologia. Há cinco anos, esse índice era de apenas 8,7%.

A matéria trata ainda do crescimento das reclamações a órgãos públicos como o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) sobre discriminação nas empresas e mostra duas decisões recentes do Tribunal Superior do Trabalho (TST) que puniu com indenizações de R$ 5.000 e de R$ 1 milhão empresas em que o assédio moral contra gays foi comprovado.